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Os que resistem

JONATHAN HECKLER/JC

Aos que resistem com as portas abertas, a saída é encontrar alternativas para manter o negócio vivo. Para estar na vitrine, porém, é preciso pagar caro. Com os altos preços dos aluguéis, resta aos comerciantes negociarem com as imobiliárias os valores dos contratos, ou até mesmo reduzir a presença no bairro. Foi o caso da Móveis Scalabrin, situada no número 540 da avenida, que fechou o depósito que mantinha na vizinha avenida Cauduro para concentrar o estoque no mesmo local da loja e, assim, enxugar custos. A loja ocupa o mesmo ponto da avenida há 22 anos, quando se mudou da avenida Independência para fazer parte do conceituado polo moveleiro da Osvaldo. Os desafios desde então, no entanto, são muitos.

Andréia Pantaleão, filha do proprietário e vendedora da Scalabrin, cita a crise econômica, que desde o ano passado vem fazendo cair a média mensal de vendas na loja, e a falta de acessibilidade como as principais dificuldades. Neste último ponto, a comerciante alega que as obras no corredor de ônibus da avenida ajudaram a afastar o público que circulava pelo local. “O que nos mantém é a fidelização do público e o bom atendimento”, diz.

A crise bateu também na quadra ao lado, onde a Móveis Schwartz resiste há 45 anos. As lojas da marca, localizadas entre as ruas Garibaldi e Tomaz Flores, são as duas únicas que restaram de um total de oito lojas Schwartz que existiam na cidade. “Nós somos sobreviventes”, decreta Sérgio Schwartz, proprietário dos endereços e quase solitário na quadra de frente à esquina do colégio Instituto de Educação. “Em 2016, o quadro começou a sinalizar que algo estava doente na economia. Em três meses, as vendas caíram 30%. Infelizmente, a situação perdurou”, avalia.

Uma a uma, o empresário lembra das lojas que viu fechar na vizinhança, muitas delas do mesmo ramo que o seu. Algumas migraram para outros polos de venda de móveis, como a avenida Ipiranga e os shopping centers. Outras, fecharam de vez. Apesar do alto custo dos aluguéis, no entanto, Schwartz acredita que o problema não é exclusivo da Osvaldo Aranha, e sim do País como um todo, que recém este ano começa a ensaiar uma recuperação econômica.

“Nós somos sobreviventes”, diz Schwartz

Bruna Oliveira/Especial/JC

Para o presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre (Sindilojas), Paulo Kruse, o entrave em torno do aluguel é uma dificuldade geral no comércio da Capital, que afeta tanto os empresários de rua quanto os de shoppings. “O proprietário, às vezes, não negocia o valor de aluguel que o comerciante sugere e a loja encerra as atividades. O ponto fica parado e a imobiliária fecha mais barato com outro que chega. É uma falta de visão comercial”, afirma Kruse.

Para o gerente comercial da Adacon, Vinícius Medeiros Wurdig, no entanto, o valor médio dos aluguéis na avenida atualmente está abaixo do que já se cobrou em outros tempos. Ainda assim, muitas lojas estão fechando. “Nas quadras mais valorizadas da Osvaldo, já teve negociação de aluguel que custava R$ 15 mil e baixou para R$ 10 mil. Pelo momento do mercado, nós entendemos que é melhor fazer negociações porque um imóvel desocupado demora muito mais para se ocupar”, argumenta Wurdig.

O ponto próprio, na maioria dos casos, é o que garante a sobrevivência dos comerciantes na avenida por mais tempo. Aberta em 1935 pelo judeu polonês Jacob Katz, a Ao Crochet é a loja mais antiga em funcionamento na Osvaldo, comandada, hoje, pelas herdeiras Regina e Raquel. A lojinha apertada entre as ruas General João Telles e Fernandes Vieira é referência tradicional no comércio de armarinhos e testemunhou as diversas mudanças na avenida ao longo das décadas, desde os anos em que a esposa do escritor Érico Veríssimo, Mafalda Halfen Volpe, entrava na loja para comprar linha, aos tempos de hoje, que misturam os novos clientes aos que voltam para matar a saudade.

Atenta às “mutações da rua”, Regina vê com bons olhos os novos negócios que lhe fazem companhia na Osvaldo. “Não atrapalha em nada, só faz enriquecer. É um bairro com parque, lojas, supermercado, hospital… Esse bairro tem vida”, diz a proprietária, que, com otimismo, espera que a loja permaneça aberta “até quando der”.


Fonte Oficial: http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/06/economia/567708-a-nova-osvaldo-aranha.html.

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