Valor >> ANÁLISE: Investidor ignora postura “dovish” do BCE e euro mantém alta

SÃO PAULO  –  O euro bateu o nível mais alto desde o começo de 2015 depois que Mario Draghi concedeu entrevista após a decisão do Banco Central Europeu (BCE)

A pressão sobre a moeda veio mesmo com o BCE mantendo no comunicado a referência de que pode aumentar as compras de ativos, se houver necessidade. Algo que já havia feito em relação às taxas de juros.

A reação da moeda mostra o quanto sua tentativa de manter um tom “dovish”, reafirmando a postura acomodatícia da política monetária e a necessidade de mantê-la assim ainda por muito tempo, não convenceu os investidores.

O euro, na sequência do seminário do BCE em Sintra no fim de junho, vem buscando patamares cada vez mais elevados, saindo de US$ 1,12 na ocasião. Hoje, ultrapassou US$ 1,16. A leitura do mercado de que o BCE vai anunciar logo, talvez sem setembro, o plano para a redução do programa de compras de ativos, parece não ter mudado, mesmo com Draghi insistindo em vários pontos já bem conhecidos, como o comportamento da inflação, que caiu para 1,3% em junho, bem abaixo da meta de pouco menos de 2%. A recuperação da economia na zona do euro parece preponderar e, no mais, o risco de deflação tornou-se uma carta fora do baralho.

Draghi enfrentou na entrevista a situação de manter o equilíbrio entre o discurso da recuperação econômica e o aperto das condições financeiras, que em outros tempos já foi uma dor de cabeça maior para a autoridade monetária.

Via de regra, embora Draghi sempre repita que “nunca” comenta o comportamento do mercado, foi pela intervenção oral que o BCE sempre atuou quando notava distorções relevantes nos preços, ou volatilidade exacerbada. Em meados de 2014 ele afirmou: “os fundamentos para um euro mais fraco são melhores hoje do que eram”, tendo em vista a força da moeda. Antes disso, Jean-Claude Trichet, presidente anterior do BCE, usou desse expediente várias vezes.

Analistas lembram que as intervenções orais do BCE sempre aconteceram quando a moeda estava num nível muito mais elevado em relação ao dólar, em torno de US$ 1,25. Ou seja, olhando para níveis do passado, o euro ainda não estaria preocupando tanto o BCE a ponto de se precisar de um ação mais forte para contê-lo, ao menos por ora.

Outra questão é que a mudança na taxa de câmbio pode, de fato, ser mais relevante do que o nível, no que tange a inflação e exportações.

“Mas os movimentos recentes não foram nítidos o suficiente para implicar muita pressão descendente sobre a inflação e a taxa de câmbio ponderada pelo comércio ainda está apenas marginalmente superior ao que era há um ano”, diz Jennifer McKeown, da Capital Economics. Historicamente, o euro preocupou as autoridades monetárias quando exibia ganhos anuais de mais de 10% na taxa ponderada pelo comércio, mas só subiu cerca de 4% no ano passado, comenta.

Há, entretanto, visões diferentes. Uma ação, medida ou intervenção do BCE seria possível, se este movimento de apreciação se mantiver. Para o Julius Baer, por exemplo, o euro subiu mais do que o aumento nos diferenciais de taxas de juros justifica. Em segundo lugar, diz o banco, o posicionamento especulativo e outros indicadores sugerem que as posições longas na moeda contra o dólar atraiu um número invulgarmente grande de participantes. Em terceiro lugar, o euro mais forte nos últimos seis meses é equivalente a um aumento da taxa de juros de 75 pontos base e será um “vento contrário” para o crescimento da zona do euro no próximo trimestre.

Draghi disse que o Conselho do BCE foi unânime em não estabelecer uma data precisa sobre quando discutir as mudanças no futuro, referindo-se ao o plano de redução do “QE”. Mas disse também que essas discussões “vão começar no outono [do hemisfério norte]”. Perguntado se a reunião de 7 de setembro – quando a maioria do mercado acredita em mudança na orientação futura do BCE –  poderia já ser considerada como ocorrendo no outono (que começa oficialmente no dia 22 daquele mês), Draghi sorriu e não respondeu.

Fonte Oficial: http://www.valor.com.br/financas/5048162/analise-investidor-ignora-postura-dovish-do-bce-e-euro-mantem-alta.

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