Valor >> ANÁLISE: Cenário em uma nova crise pode ser mais difícil para o Japão

SÃO PAULO  –  Janet Yellen e Mario Draghi, respectivamente presidentes do Federal Reserve (Fed) e do Banco Central Europeu (BCE), centralizaram as atenções dos agentes no Simpósio de Jackson Hole no fim da semana passada, mas não sinalizaram claramente quaisquer intenções de ações futuras na política monetária, tampouco fizeram avaliações sobre o estado das economias dos Estados Unidos e da zona do euro. Já Haruhiko Kuroda, presidente do Banco do Japão, foi mais explícito em uma entrevista concedida lá e que foi ao ar ontem (28).

Kuroda disse à TV Bloomberg que o ritmo recente de crescimento da economia japonesa não é provavelmente “sustentável”. O PIB cresceu 4,0% no segundo trimestre deste ano (taxa anualizada), muito acima do esperado e com uma composição salutar: puxado pelo consumo e investimentos. Kuroda frisou, contudo, que a taxa “sustentável” é de cerca de 2,0%. Foi o sexto trimestre consecutivo de taxas positivas de crescimento no país asiático. Mas a inflação, tal como nos EUA e Europa, permanece abaixo da meta de 2,0% com a reação ainda tímida dos salários.

Embora Kuroda tenha reforçado o foco do BoJ em manter a política monetária altamente acomodatícia e as compras de JGBs (títulos públicos) no passo atual (80 trilhões de ienes ao ano), ao longo do tempo a oferta de títulos deve cair, algo que, de fato, já está acontecendo. “[…] Significa que com uma unidade de compra de JGB o impacto sobre a taxas de juros poderia ser maior”, disse o presidente do BoJ. Em outras palavras, para manter o plano de controlar a curva de rendimentos dos títulos, será preciso menos ativos na carteira.

O cenário para o BoJ se diferencia daquele que Fed e o BCE estão vivendo. O BC americano está em vias de começar a reduzir o balanço patrimonial e está lentamente subindo as taxas de juros. O BCE prevê compras médias de 60 bilhões de euros até dezembro e, talvez já em setembro, anuncie seu plano para encerrar o programa para, só depois, pensar em reduzir sua carteira. O BoJ, por sua vez, segue ampliando seu portfólio, ainda que o passo desacelere ao longo do tempo justamente pela escassez de papeis no mercado.

Curiosamente, os três bancos centrais têm atualmente quase o mesmo tamanho de balanços patrimoniais medidos em dólares. O Fed com US$ 4,4 trilhões, o BCE com US$ 4,9 trilhões e o BoJ com US$ 4,5 trilhões (dados dos BCs até julho). Em 2008, no estouro da crise financeira, tinham respectivamente, US$ 900 bilhões, US$ 2 trilhões e US$ 1 trilhão.

Considerando os movimentos atuais do Fed e do BCE, o BoJ teria um desafio aparentemente mais difícil numa eventual nova crise. Isso porque há pouco espaço para afrouxar mais a política monetária (os juros estão negativos) e o balanço patrimonial já é vultoso e tende, segundo analistas, a ultrapassar os dois pares rapidamente, mantido o ritmo atual de compras.

Fonte Oficial: http://www.valor.com.br/financas/5098994/analise-cenario-em-uma-nova-crise-pode-ser-mais-dificil-para-o-japao.

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