Valor >> ANÁLISE: Congresso dos EUA volta do recesso sob pressão

SÃO PAULO  –  Depois de ficar em recesso durante todo o mês de agosto, o Congresso americano volta a trabalhar nesta terça-feira (5), sob a pressão de agir rapidamente para aprovar medidas fundamentais aos interesses da Casa Branca.

Os congressistas americanos precisarão dar atenção especial a dois temas: o pacote de ajuda às vítimas do furacão Harvey, que atingiu os Estados do Texas e da Louisiana enquanto o Capitólio esteve em recesso, e a elevação do teto da dívida. Os dois assuntos acabaram se conectando por meio da estratégia dos aliados do presidente Donald Trump de apresentar as duas medidas em uma única lei para facilitar a aprovação do aumento do limite da dívida aproveitando o apelo popular para a liberação do dinheiro necessário à recuperação das zonas impactadas pelo furacão.

A aprovação do teto é um ponto sensível ao mercado financeiro já que representa um teste importante da capacidade de Trump de superar as divisões acentuadas dentro de seu partido e se o caminho para a aprovação de reformas, como a Tributária, será de fato trilhado depois de nove meses de governo. Das reformas depende uma série de questões cruciais, como, no limite, a trajetória das taxas de juros nos EUA.

Se por um lado a aprovação do pacote de ajuda às vítimas do Harvey é consenso nos bastidores de Washington, a elevação do teto da dívida ainda gera discussões. Analistas de mercado acreditam que o financiamento para recuperar as áreas afetadas pelo furacão, que será apresentado na forma de uma lei sobre alívio de desastres naturais, automaticamente facilitará a aprovação do teto da dívida. O Tesouro dos EUA vem administrando os recursos desde março para conseguir honrar seus pagamentos pelo menos até 29 de setembro, data-limite para que não haja um ‘shutdown’ do governo.

A estratégia republicana, portanto, é vincular a elevação do teto da dívida e a lei sobre alívio de desastres naturais em um único texto, o que pode forçar os congressistas a aprovarem a medida sem impasses para evitar danos políticos a si próprios. Os republicanos, que têm maioria na Câmara dos Deputados e no Senado, caminham para colocar a estratégia em prática nos próximos dias, mas há um racha dentro do partido.

Por outro lado, Trump pode ganhar o apoio de democratas na aprovação de uma lei única que vincule uma resolução contínua sobre o teto da dívida que evite o pior desfecho.

Há ainda a questão do muro na fronteira com o México. Trump ameaçou rejeitar a resolução para o aumento da dívida e fechar o governo caso o dinheiro para a construção não seja incluído no orçamento.

A reação dos mercados ao “teto”

Em linhas gerais, o impacto dos mercados aos “shutdowns” do governo americano foi modesto, embora nos dias cruciais tenha havido um aumento considerável da volatilidade dos preços dos ativos.

Olhando retrospectivamente, entretanto, não houve nos episódios  um saldo negativo contundente sobre o mercado de ações ou de renda fixa.

Desde 1960, aconteceram 79 elevações do teto da dívida dos EUA, 15 delas desde 2001, segundo levantamento do Nomura. Vale notar que nos 18 eventos de elevação do teto desde 1976, a média de recuo do S&P foi de apenas 0,6%.

Especialmente em 2011 e 2013, houve um aumento de risco considerável da percepção de risco.

Em 2011, o “Budget Control Act” foi aprovado no último dia em que o Tesouro americano poderia fazer seus pagamentos e o mercado temeu pela paralisação do governo. Como consequência, a Standard & Poor’s, rebaixou os EUA da classificação AAA (topo do grau de investimento), uma posição ocupada pelo país por 70 anos. O S&P 500 caiu cerca de 20% entre julho e outubro mas, ainda assim, fechou 2011 com apenas com leve queda de 0,4%.

Em 2013, houve de fato um ‘shutdown’ que durou 16 dias, entre 30 de setembro e 27 de outubro. Curiosamente o S&P subiu 3,1% no período.

No aspecto econômico, pouco ou nenhum impacto sobre o crescimento do PIB americano foi observado, embora isso não possa ser descartado agora, especialmente se uma deterioração nos mercados afetar a confiança do consumidor de forma intensa.

A demanda por ativos seguros como Treasuries e ouro cresceu em todos os anos em que o debate sobre o teto foi mais intenso, como é natural. De fato, nas últimas semanas os retornos dos títulos de curtíssimo prazo do Tesouro americano já mostrou alguma reação em função das datas-chave da votação, mas nada que signifique pânico. Nesse sentido, cabe mencionar o comportamento do índice VIX de volatilidade do S&P 500, conhecido como um indicador de “medo”. O índice está na faixa de 10 pontos, em comparação com 46 pontos em outubro de 2011.

Embora o passado não dê aval para um sentimento de pânico, o cenário com Trump no poder é bem diferente do que se viu em governos passados tornado difíceis as previsões.

A agência de rating Fitch afirmou no último dia 23 que se o teto da dívida não for elevado a tempo irá rever o rating AAA com “implicações negativas”, porque a ideia levantada por alguns republicanos de não elevar o teto e sim priorizar o pagamento de alguns tipos de dívida não é o bastante.

O grande desafio: Reforma Tributária

Depois de superados esses temas, o Congresso americano tem pela frente a proposta de reforma tributária,  principal projeto legislativo da administração Trump para este semestre. Além dos aspectos econômicos, há o simbolismo, uma vez que Trump falhou na tentativa de revogar e substituir o Obamacare nos primeiros meses de seu governo – uma das principais bandeiras da campanha eleitoral.  Steven Mnuchin, secretário do Tesouro, prometeu apresentar os detalhes da reforma nas próximas semanas. O que se sabe até o momento é que o objetivo da Casa Branca é “reduzir dramaticamente os impostos para empresas e pessoas físicas”.

A aprovação desta reforma representaria uma injeção de ânimo para os mercados,  mas também aceleraria, em tese, a normalização da política monetária americana por conta de um potencial crescimento mais robusto da atividade econômica.

Fonte Oficial: http://www.valor.com.br/financas/5108254/analise-congresso-dos-eua-volta-do-recesso-sob-pressao.

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