Valor >> Procurador Dallagnol “interpreta” Maluf e fala de política em palestra

CURITIBA  –  O coordenador da força-tarefa da Lava-Jato no Paraná, Deltan Dallagnol, interpretou o deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) numa espécie de teatrinho montado com outros procuradores para explicar o sistema de dólar-cabo, fez piadas e soltou sutis opiniões sobre política na palestra que abriu o “Workshop Experiências da Força-Tarefa da Lava-Jato: técnicas especiais de investigação para o enfrentamento da corrupção”, nesta terça-feira (19) à noite em Curitiba.

O evento levou a Curitiba 290 promotores de Justiça de Ministérios Públicos estaduais de 26 unidades da federação — a maioria deles trabalha na área da defesa do patrimônio público. Até quinta-feira (21), eles irão ouvir Dallagnol e colegas de força-tarefa falarem sobre experiências e técnicas de investigação no combate à corrupção adquiridas pela Lava-Jato.

“Não basta o procurador da República trabalhar no gabinete. Fora dele, conseguimos buscar mudanças mais profundas. Não importa onde você está, você pode fazer mais e melhor”, falou Dallagnol. Antes, já abrira a palestra com tom de discurso político. “Lutamos contra a corrupção pelo dano humano que ela causa. O que nos inspira é o rosto dos milhões de inocentes afetados pela corrupção”, bradou, na fala acelerada que é uma marca registrada dele.

Apesar do tom de discurso político, que leva à especulação de que ele pode migrar para a política, Dallagnol negou, ao fim do evento, qualquer intenção de candidatar-se. “Recebi convites de quatro partidos políticos para conhecê-los. Não fui a nenhum”, garantiu, classificando sua eventual ambição eleitoral de “boato”.

Dallagnol arrancou risos da plateia em alguns momentos. No primeiro deles, levantou-se da cadeira que ocupava à mesa solene, arrumou um microfone sem fio e montou um teatro, com colegas à mesa, para explicar aos promotores como funciona o sistema dólar-cabo — usado por operadores financeiros para despistar a origem de dinheiro lavado em casos como os investigados pela Lava-Jato.

“Imaginem que um político chamado Paulo Maluf seja corrupto, desviou dinheiro numa obra em São Paulo e entregou a Vivaldo Alves (doleiro que trabalhou para o político do PP)”, disse, entregando um objeto a um procurador a seu lado. Em seguida, talvez se lembrando que havia jornalistas na plateia, corrigiu-se. “Ninguém é culpado até trânsito em julgado. Não estou dizendo que Maluf é corrupto, apesar de ter mandado de prisão da Justiça em Nova York. A responsabilidade penal delas ainda será avaliada.”

Noutro momento, Dallagnol, falando do que vê como motivos para o sucesso da Lava-Jato, comparou-a a um popular videogame jogado em redes sociais e smartphones. “O primeiro motor propulsor das investigações foram as colaborações premiadas. Antes da Odebrecht, já eram 78 colaboradores. O segundo é o sistema de fases. Já chegamos a 45 na Lava-Jato, mas queremos superar o Candy Crush Saga em número de fases”, afirmou.

Ao falar da investigação na Petrobras, soltou comentários sobre política. “Indicações de partidos políticos [para cargos na estatal] pode não ser um bom sistema de governança, mas a princípio não significa nada de errado”, disse. “A corrupção e a ineficiência econômica caminham de mãos dadas. Isso aconteceu na Petrobras, e também pode acontecer na sua comarca (dirigindo-se aos promotores)”, argumentou, noutro momento.

Defendeu as delações premiadas. “Ela não leva ao ponto de chegada, ao fim do labirinto probatório. Mas permite um vislumbre, permite ver de cima o labirinto, e indica qual o caminho de probabilidade maior”, afirmou. “Na Lava-Jato, em 100% dos casos, a defesa buscou a colaboração como estratégia. Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef disseram que não queriam ser novos Marcos Valérios (em referência ao operador dos mensalões petista e tucano).”

Já chegando ao final da palestra de uma hora, antes de apresentar um slide que tratava da “Guerra de Comunicação” travada contra a operação, citou o ministro da propaganda Alemanha nazista, Joseph Goebbels e a pós-verdade. “É possível haver críticas à Lava-Jato. Claro que tudo pode ser feito melhor, mas nossa regra é sempre a Constituição. Mas me preocupam as críticas ilegítimas, na estratégia do Goebbels, em que se repete a mentira mil vezes até ela parecer verdade. E cabe lembrar que vivemos na época da pós-verdade.”

Fonte Oficial: http://www.valor.com.br/politica/5125938/procurador-dallagnol-interpreta-maluf-e-fala-de-politica-em-palestra.

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