Jornal do Comércio >> Economia está descolada da política, diz Petry

Jefferson Klein

Há um pouco mais de dois meses no comando da Fiergs, Gilberto Petry, assumiu o cargo em um momento atribulado da política brasileira. Porém, o empresário vê como cenário positivo o descolamento da economia nacional dos escândalos que se sucedem em Brasília. Petry projeta que a retomada do crescimento, puxada por setores como o agronegócio e o industrial, já começará a ser percebida a partir do início de 2018.

Jornal do Comércio – Qual o balanço que o senhor faz nesses poucos meses na presidência da Fiergs?

Gilberto Petry – A instituição mantém uma coisa que eu sempre pensei dela, que é ser muito bem organizada. Só que, obviamente, tem muito trabalho, demanda por entrevistas, por apoio, por audiências. Há certo tolhimento do tempo. Aqui às vezes tu não comandas teu tempo e isso é ruim. Eu tenho tido até umas discussões porque digo que não posso ser comandado pela pauta. Se tu és comandado pela pauta, não fazes nada, tem que ter tempo para pensar também.

JC – Qual é a sua análise sobre a atual conjuntura econômica e política? As mais recentes denúncias contra o governo podem influenciar em mais mudanças no País?

Petry – As denúncias que fizeram, até agora, e nos últimos tempos, acho que não alteram mais nada na percepção das pessoas sobre as coisas do País. Qualquer denúncia adicional que venha, como envolve os mesmos, não causa mais surpresa. O segundo ponto positivo é que estamos com um nível de inflação nunca visto nos últimos 20 anos.

JC – A economia descolou-se da política?

Petry – Eu acho que está se desgarrando. Declarei isso em uma reunião da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e em um encontro da diretoria da Fiergs. Acho que está havendo um descolamento. Isso é saudável, porque os problemas econômicos têm relação com os problemas políticos, mas não são unidos umbilicalmente. A economia tem que andar com ou sem o partido X no poder.

JC – Dentro desse contexto, o senhor pensa que ainda há risco de um novo processo de impeachment, dessa vez contra o presidente Michel Temer?

Petry – Acho muito difícil. Por que no momento em que o Supremo Tribunal Federal (STF) definiu que é da competência do parlamento decidir se abre ou não um processo e já houve uma primeira rejeição por parte da Câmara dos Deputados, não vejo como um segundo prosperar.

JC – Um eventual novo impeachment, significaria um grande impacto?

Petry – Eu acho que bem menor do que o primeiro, quando havia dúvidas se conseguiria se superar o fato. Como superou, um segundo tenderia a ir pelo mesmo caminho.

JC – A retomada da economia é uma perspectiva para qual horizonte?

Petry – Para começar, é agora no início do ano que vem, eu acho que ela embala.

JC – Qual seria um patamar adequado?

Petry – Crescimento de 2% a 2,5% do PIB é um bom sinal.

JC – O Rio Grande do Sul deve ter desempenho semelhante?

Petry – O Estado até tem se dado melhor por causa das safras. Esperamos que no ano que vem a safra seja boa e possa ter patamares semelhantes.

JC – Qual a sua opinião sobre a reforma trabalhista?

Petry – Eu não chamo de reforma, chamo de modernização. Era uma legislação que iniciou em 1943 e de lá para cá só aumentou o caráter protetivo, engessou as relações trabalhistas. É uma questão de um pouco mais de abertura. Onde o empregador e o empregado vão definir se é melhor, por exemplo, ter um intervalo de almoço de uma hora ou baixar para 45 minutos ou 30 minutos e ele (funcionário) poder sair mais cedo e chegar em casa mais cedo. Eu vejo lá pela minha fábrica (Weco – Indústria de Equipamento Termo-Mecânico) que o que eles querem é chegar mais cedo em casa. Eu vejo com bons olhos essa questão da modernização trabalhista.

JC – E qual sua opinião sobre a reforma previdenciária?

Petry – Acho fundamental. A medicina moderna trouxe dois fatores: um benéfico e outro preocupante. O benéfico é que fez todos vivermos mais. Mas, as pessoas estão pagando o mesmo tempo (de contribuição) para usufruir mais e isso é um problema de desequilíbrio. Tem que ter uma idade mínima para se aposentar. Também seriam fundamentais as reformas tributária e a política. Como se pode governar um País onde tem 26 ou 28 partidos dentro do Congresso nacional? Isso vira um balcão de negócios, onde quem, para governar, termina aceitando o jogo. O Brasil poderia ter no máximo cinco ou seis partidos.

JC – Como o senhor projeta o cenário eleitoral para 2018?

Petry – Vai haver uma renovação. Os nomes que estão marcados pela Lava Jato vão ter grandes dificuldades de convencer a população de que isso não é verdade.

JC – Qual a sua opinião a respeito da prática do Refis (parcelamento de débitos tributários)?

Petry- Acho que quem tem que comandar isso, realmente, com todas as sugestões que nós damos na área industrial, é o Ministério da Fazenda. As companhias que se propõem a pagar têm que receber uma condição que seja atrativa, mas que por outro lado não desestimule aqueles que pagam em dia.

JC – No final do próximo ano, as alíquotas de ICMS sobre energia, combustíveis e outros itens, aprovada no começo do governo de José Ivo Sartori, deverão voltar aos patamares anteriores. Qual seria a posição da Fiergs se for proposta uma manutenção das alíquotas mais elevadas?

Petry – A Fiergs é contra o aumento de impostos. E se foi acertado que vai até dezembro de 2018 é dezembro de 2018. As empresas já estão trabalhando com margens que não sobram nada.

JC – Qual a sua avaliação sobre a ideia do governo gaúcho de privatização de estatais?

Petry – Se é boa ou não, eu não sei dizer porque teria que fazer uma análise dentro das empresas. O que eu digo é o seguinte: se elas não conseguem atender aos investimentos necessários e isso vai prejudicar o serviço, o Estado tem que abrir mão. A população quer e exige o serviço. E o Estado vê nisso uma fonte de recursos para pagar, nem é a sua dívida, mas as despesas correntes que não tem de onde tirar. O governo só tem como tirar para as despesas correntes com a melhora da economia, que faça aumentar a arrecadação de impostos, ou vendendo ativos.

JC – As dificuldades enfrentadas hoje pelo polo naval gaúcho podem levá-lo à extinção?

Petry – É uma boa pergunta. A Petrobras, ao transferir as encomendas dela para a Ásia, deu uma mostra que não estaria disposta a pagar um preço adicional que a empresa entende que há nas plataformas aqui. Isso pode ser um problema para o polo gaúcho. Mas, os investimentos que foram feitos no polo, tínhamos que dar um jeito de reativar, porque significa muito emprego e movimentação da economia.

Fonte Oficial: http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/09/economia/587038-economia-esta-descolada-da-politica-diz-petry.html.

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