Jornal do Comércio >> José Galló conta trajetória da Lojas Renner

Adriana Lampert

Quando o presidente da Lojas Renner, José Galló, decidiu escrever sobre suas experiências e tomadas de decisões ao longo de sua trajetória no varejo, já sabia que não havia como escapar de contar um pouco da história da empresa, uma das maiores e mais consolidadas varejistas do País. “Claro que as coisas se confundem, mas o foco desta publicação é contar minha trajetória profissional, e compartilhar as decisões que optei tomar em diversas situações nas empresas que tive oportunidade de trabalhar”, esclarece o gestor. Amanhã, Galló lança o livro O Poder do Encantamento. O evento ocorre as 18h30min, na Livraria Cultura, no Bourbon Shopping.

Jornal do Comércio – O que levou o senhor a decidir falar de sua trajetória no varejo?

Jose Galló – Eu fiz toda minha carreira no varejo, e no decorrer deste caminho conheci muitas pessoas que contribuíram na minha trajetória e que me ajudaram a tomar uma série de decisões. Sempre é um grande desafio fazer aquilo que a gente gosta, que temos paixão e eu descrevo no início do livro que eu tomei algumas decisões antes de achar o meu caminho. Então, eu não falo somente da minha carreira no setor, mas apresento também o ponto de vista de algumas personalidades que foram aparecendo, porque eram importantes de serem citadas a medida que eu ia recordando os acontecimentos.

JC – Quanto tempo levou o processo da confecção do livro, antes de ser editado?

Galló – Levou mais de dois anos, pois foram necessárias cerca de 60 entrevistas, para aprofundar o texto, e ir inserindo a visão destas pessoas que contribuíram para a construção da minha trajetória – são ex-conselheiros e ex-diretores da época da Incossul, da Moda Casa (quando tive meu próprio negócio), e, claro, colegas da Renner.

JC – Dá para dizer que a história da Renner se confunde um pouco com a sua própria história?

Galló – Sim, com certeza. São 25 anos de Renner. Uma coisa que é bastante peculiar, é que cada ciclo da Renner tem durado sete anos: primeiro teve o ciclo de empresa familiar, que levou sete anos até se tornar subsidiária da JC Penny (empresa internacional), e depois outros sete anos até que ocorreu a formação da corporation. Consolidada como uma corporação, agora a Renner está passando por outro ciclo, de sete anos que está para se completar, onde a empresa deve se consolidar como um fast retealer (especializada no desenvolvimento rápido da moda).

JC – Qual foi seu principal desafio quando entrou na Renner?

Galló – No final de 1991, a Renner estava sem posição no mercado. Vendia artigos diversos para um consumidor que queria outro tipo de produto. Precisava ser reposicionada, tanto no ponto de vista de produtos, quanto de lojas, quanto de comunicação. Naquela época, a empresa estava somente no Rio Grande do Sul e o primeiro plano estratégico era ganhar espaço nos demais estados da região Sul, para depois começar a avançar para o centro do País.

JC – Em que momento houve esta expansão? O que contribuiu?

Galló – A grande alavanca ocorreu com a falência da Mesbla (em todo o Brasil) e o Mappin (em São Paulo). De 38 lojas da Mesbla, a Renner ficou com 19 e de 11 do Mappin, ficamos com nove – e aí ocorreu o processo de nos nacionalizarmos, e daquelas oito lojas iniciais do Rio Grande do Sul, hoje temos 315 lojas Renner em todos estados brasileiros, além de 96 da Camicado, 74 da Youcom, somando 483 lojas.

JC – No que se refere à gestão, o que foi fundamental para o crescimento da empresa?

Galló – Nós encantamos clientes. Enquanto satisfazer significa igualar o desejo do cliente, encantamento é superar as expectativas, e este sempre foi nosso grande desafio diário: fazer com que todas as pessoas da empresa (independentemente do cargo que ocupem, desde o presidente até o último cargo) estejam imbuídas desta missão.

JC – Quais foram as decisões mais difíceis na sua trajetória?

Galló – Houve bastante dificuldade durante a negociação para aquisição das lojas do Mappin e da Mesbla, mas também a decisão de criar uma corporation, em 2005 foi desafiadora. Passamos a ser uma empresa que tem capital pulverizado, sem acionista controlador. Eu sempre brinco que tenho 1.800 patrões espalhados pelo mundo (35% de investidores na Europa, 35% nos Estados Unidos, 20% no Brasil, 7% na Ásia e 3% no Japão).

JC – Como o senhor explica uma maior quantidade de investidores estrangeiros?

Galló – Hoje todas as aberturas de capital de empresas têm tido como uma constante a maior participação dos acionistas estrangeiros, porque eles estão mais acostumados a comprar ações, tem mais hábito do que os brasileiros – que sentem mais receio, em função de inflação alta, juros altos e crises. Para pensar em ações, tem que estar em tempos de economia estável. Tanto que o boom que está tendo na Bolsa de Valores atualmente é justamente porque a inflação e os juros estão baixando no Brasil, e agora com a estabilidade da economia, muitos brasileiros passaram a aplicar na bolsa.

JC – No momento, a Renner se consolida no mercado pelo desenvolvimento rápido da moda. Isso é uma tendência?

Galló – Estamos nos adequando a realidade do mercado. Hoje em dia, a Renner faz oito coleções por ano, enquanto em 1992 eram duas por ano. Isso é uma tendência do varejo, de ser mais rápido na apresentação das coleções. Empresas que não acompanharam isso estão perdendo força no mercado, principalmente aquelas lojas de departamentos que vendem muitos produtos, incluindo móveis, a exemplo da própria JC Penny.

JC – O senhor pode adiantar uma história pitoresca que é citada no livro?

Galló – Quando entrei na Renner, havia muita coisa para ser mudada. E, naquela época, não tínhamos produto certo, as lojas não eram padronizadas e já tinha sido comprada toda a mercadoria para o Natal, e também para o início de inverno. Eu via toda aquela mercadoria (que estava toda errada, mas não dava para fazer mais nada naquele momento) e ficava muito angustiado. Na época, a sede da Renner tinha uma sala de reuniões que dava para uma parte da avenida Assis Brasil, em Porto Alegre, que tinha um jacarandá maravilhoso. Olhar para aquela árvore era meu único consolo na época. Nossa vida só iria começar a mudar depois de seis meses, e ver tudo aquilo me dava uma angústia muito grande. Tínhamos um grande desafio pela frente.

Fonte Oficial: http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/09/economia/587156-jose-gallo-conta-trajetoria-da-lojas-renner.html.

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