Jornal do Comércio >> Opinião econômica: Arquitetura nas alturas

O livro de Raul Juste Lores sobre a arquitetura de São Paulo nos anos 1950 é, além de uma reflexão fundamental sobre o assunto no País, uma reflexão fundamental sobre o próprio País.

O Brasil é tão voltado para o futuro que chegou a ser chamado de o país do futuro. Mas só tem futuro quem tem passado.

É verdade que aconteceu muita coisa ruim na nossa história. Mas por isso mesmo precisamos valorizar as coisas benfeitas ao longo do nosso caminho. Elas são os melhores guias para o tão desejado futuro.

Lores garimpou um recorte luminoso de nossa arquitetura em “São Paulo nas Alturas” (Editora Três Estrelas). A cidade naquela época não tinha a legislação complexa de hoje, não tinha plano diretor, não tinha essa burocracia pesada. Era possível construir muito mais por metro quadrado de terreno. Projetos ousados e originais eram avaliados por comissões de especialistas de alto nível.

Imigrantes de vários países, boa parte deles judeus, traziam à jovem metrópole as últimas tendências e espalhavam esse conhecimento pela academia e pelos salões da cidade.

Lores relata como os arquitetos da época, sem internet nem nada, acompanhavam os últimos projetos das escolas americanas e europeias devorando revistas estrangeiras que custavam os olhos da cara e chegavam com meses de atraso.

Apoiados por empreendedores e financistas modernos, como o publisher da Folha Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), esses arquitetos e essa arquitetura são, cada um, um monumento ao que podemos construir.

O Conjunto Nacional, o Copan, o Bretagne e a Galeria do Rock são alguns dos empreendimentos de alta qualidade arquitetônica que tiveram alta viabilidade econômica desde o lançamento.

Os empreendedores formaram e fomentaram um público ávido por projetos desses grandes arquitetos. E assim ergueram belos prédios que até hoje têm alto valor econômico e arquitetônico.

Muito se fala agora em prédios multifuncionais e abertos ao público, o que descreve exatamente o Conjunto Nacional, inaugurado em 1956. Projetado por David Libeskind, ele reúne escritórios, consultórios e apartamentos de várias metragens, cinemas, restaurantes (foi lá que o Fasano virou Fasano), lojas (foi lá que a Livraria Cultura virou Livraria Cultura). E agora ainda tem as estações do metrô em volta.

Libeskind, Niemeyer, Artacho, Korngold, Candia. Não faltam exemplos vivíssimos desse momento mágico de nossa arquitetura, um sopro de bossa nova que depois se perdeu em meio à imposição de uma arquitetura pastiche e comercial, no mau sentido do termo.

Lores nos provoca com seu livro a olhar as árvores, e não apenas a floresta de prédios. As descobertas são valiosas e necessárias. O Brasil precisa dar mais valor a tantas coisas – e entre elas estão certamente a arquitetura e o urbanismo.

A mudança necessária na política brasileira deve passar por um novo olhar nessa área.

O Minha Casa Minha Vida precisa de Mais Arquitetos.

O deficit habitacional é também um deficit de boa arquitetura que facilite e valorize a vida dos moradores.

Eu não tenho dúvida de que o futuro do Brasil vai chegar. Só cabe a nós realizá-lo. Esses arquitetos que levaram São Paulo às alturas criaram ideias que viraram projetos que mobilizaram empreendedores e trabalhadores num ambiente de negócios favorável. Assim eles ergueram coisas belas, que estão aí até hoje.

É uma lição e tanto sobre como construir o Brasil que queremos e merecemos.

Publicitário e fundador do Grupo ABC

 

Fonte Oficial: http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/11/economia/597280-opiniao-economica-arquitetura-nas-alturas.html.

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