Brasil é líder mundial em renda concentrada no 1% mais rico – Exame

São Paulo – O Brasil é a grande economia do mundo onde a renda está mais concentrada no 1% mais rico da população.

A conclusão é de um relatório sobre desigualdade divulgado nesta quinta-feira (14) e que foi coordenado pelo economista francês Thomas Piketty, celebrado pelo livro O Capital no Século XXI.

Os 10% brasileiros mais ricos acumulam 55% da renda nacional, o mesmo nível verificado na Índia e na Áfria subsaariana e muito à frente de Europa, China e Rússia.

Já a elite da elite, o 1% mais rico, tem 27,8% da renda nacional no Brasil contra 21,7% na Índia, 16,8% na Argentina e 20,2% nos Estados Unidos e na Rússia.

O relatório conclui que a desigualdade cresceu em quase todas as regiões do mundo nas últimas décadas, mas em velocidades diferentes.

As exceções são justamente Brasil, Oriente Médio e África Subsaariana, onde a desigualdade ficou relativamente estável no período.

“Já que nunca passaram pelo regime igualitário do pós-guerra, estas regiões definiram a ‘fronteira da desigualdade’, explica o texto.

Metodologias

Os dados partem de 70 análises nacionais que combinam várias fontes. No caso do Brasil, os dados são do economista Marc Morgan para o período entre 2001 e 2015.

Eles confirmam, com pequenas diferenças, o trabalho de Fabio Avila Castro, Marcelo Medeiros e Pedro H. G. F. Souza em 2014, pioneiro no uso de imposto de renda para calcular desigualdade.

O discurso de queda da desigualdade no Brasil no começo do século se baseava em dados de pesquisas domiciliares, que capturam bem o aumento da renda do trabalho, mas não a riqueza da elite.

A inovação destes novos trabalhos é que ao usar dados como imposto de renda, eles capturam melhor a riqueza no topo do topo. A conclusão foi que os pobres brasileiros ganharam muito, mas os ricos ganharam ainda mais, e com isso a desigualdade ficou relativamente estável.

Mundo

Em nível mundial, o resumo da ópera está no “gráfico do elefante”, que mostra os vencedores e perdedores da aceleração da globalização entre 1980 e 2016.

Os 50% mais pobres receberam apenas 12% da riqueza criada do período, mas isso significou um aumento forte da sua renda. Este foi o resultado do crescimento rápido da Ásia, especialmente de China e Índia, que tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza.

Já o 1% dos mais ricos obteve 27% do crescimento mundial, e o que acontece no topo mexe muito com a média geral: daí o aumento geral da desigualdade.

Quem ficou no meio, entre os 50% mais pobres e o 1% mais rico, viu sua renda estagnar: foi o caso das pessoas de classe baixa e média nos países desenvolvidos, por exemplo.

Nada disso é inevitável. As políticas nacionais fazem diferença e s BRICS são um exemplo: no período analisado, a alta da desigualdade foi abrupta na Rússia, moderada na China e relativamente gradual na Índia.

Outro exemplo: em 1980, Europa e Estados Unidos tinham níveis similares de desigualdade (10% da renda na mão do 1%), mas suas trajetórias se descolaram. Hoje a taxa na Europa Ocidental é de 12% (a mais baixa do mundo) enquanto a dos Estados Unidos dobrou para 20%.

Os pesquisadores apontam motivos como diferenças educacionais e de impostos. O sistema tributário americano passou por mudanças que favoreceram os mais ricos e tudo indica que a reforma tributária recentemente aprovada pelo governo de Donald Trump só vai acelerar este processo.

A trajetória a partir de agora depende deste tipo de decisão. A previsão é que até 2050 a participação do 1% na renda mundial pode cair levemente dos 20% atuais ou subir para 25% ou 28%, dependendo do cenário.

Um sistema tributário mais progressivo é uma das principais recomendações do relatório, combinado com um sistema global de combate aos paraísos fiscais.

Gabriel Zucman, um dos autores do relatório, calcula que o estoque acumulado nos paraísos fiscais hoje guarda R$ 7,6 trilhões ou 8% da riqueza financeira total do mundo.

Fonte Oficial: Exame.

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