Conectados e solitários: a geração Z – Exame

Psicóloga argumenta que os jovens da geração Z são menos ideológicos e mais tolerantes. Mas têm mais dificuldade de se definir

Por Joel Pinheiro da Fonseca, de Exame Hoje

access_time 16 dez 2017, 11h50

iGen: Why Today’s Super-Connected Kids Are Growing Up Less Rebellious, More Tolerant, Less Happy — and Completely Unprepared for Adulthood —and What That Means for the Rest of Us 

Autor: Jean Twenge

Editora Atria Books

352 páginas

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Os jovens de hoje em dia contraem menos DSTs, se envolvem em menos acidentes de trânsito, cometem menos delitos, são mais tolerantes com a diferença, exigem mais igualdade para todos e, de maneira geral, valorizam a segurança. Isso parece ótimo, não é? O problema é que são também mais inseguros, têm mais transtornos mentais, formam vínculos humanos mais fracos e estão mais infelizes. Esses são, na visão da psicóloga americana Jean Twenge, os traços definidores da geração Z ou, como ela prefere chamá-los, iGen, uma referência ao narcisismo (e à tecnologia que o alimenta) que marca a geração.

Em iGen: por que as crianças superconectadas de hoje estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes — e completamente despreparadas para a vida adulta — e o que isso significa para o restante de nós, em uma tradução livre, Twenge descreve a geração daqueles que vieram ao mundo já com a internet a pleno vapor; ou seja, os nascidos depois de 1995. Ou seja, os millennials, alvos da reprovação universal até pouco tempo atrás (a própria Twenge tem um livro sobre eles), podem respirar aliviados: chegou alguém ainda pior para ouvir o sermão.

Muitas das mudanças culturais de nosso tempo têm a ver com a tecnologia. Internet e smartphones não são apenas plataformas neutras de acessar e disseminar informação e comunicação: eles mudam a forma como nos relacionamos. Para aqueles que têm um smartphone desde crianças, estar em contato constante com sua família e colegas, ou com um videogame sempre à disposição imediata 24h por dia, é uma realidade cotidiana. Por isso mesmo, o contato pessoal perde um pouco da sua importância, e os atrativos da tela conquistam cada vez mais espaço dentro das mentes jovens.

Assim, a realidade social da iGen é a de uma geração que socializa menos ao vivo e que se sente mais sozinha. Uma geração que tem mais facilidade com emojis do que com expressões faciais, e que é também mais insegura para travar contato físico. A mudança tem sido rápida. Entre 2011 e 2015, o número de estudantes do décimo ano (que corresponde ao primeiro ano do Ensino Médio) que se sente solitário aumentou 31%. Fenômenos como o cyber-bullying intensificam esse fenômeno, ao punir aqueles aqueles que fogem do padrão.

O uso da internet 24h por dia também intensifica o chamado “fear of missing out” (FOMO), uma ansiedade constante na qual a pessoa nunca está satisfeita com o que está fazendo, pois pressente que pode ter algo ainda melhor a um clique de distância. Isso se traduz também nos programas da vida real: por que se comprometer em ir ao cinema com os amigos no fim de semana, se talvez algo mais interessante – como uma festa – apareça? Cabe notar que o resultado geral é que os jovens têm ido a menos festas.

O resultado são jovens menos dados ao comportamento de manada: e por isso menos ideológicos, menos religiosos e mais tolerantes. Ao mesmo tempo, têm muito mais dificuldade de se definir, de tomar riscos e de se dedicar a algum objetivo ou firmar algum compromisso.

Uma pessoa avessa ao risco estará mais segura. De fato, um comportamento como entrar no carro de um motorista alcoolizado, aceitável para grande parte dos adultos da geração X, é evitado pelos iGen. Isso significa menos mortes em acidentes. Ao mesmo tempo, significa menos projetos grandiosos e menos experiências marcantes (o número de indivíduos sexualmente ativos no nono ano caiu 40% de 1991 até hoje). O relativo isolamento garante mais espaço para as idiossincrasias individuais. Ao mesmo tempo, enfraquece qualquer sentido de pertencimento e de comunidade.

A geração X, que foi jovem nos anos 80 e 90, esticou a adolescência: demorou mais para entrar na vida adulta, começar a trabalhar e se assentar. Os iGen de certa forma encolheram a adolescência, mas não porque entram na fase adulta mais cedo, e sim porque prolongam a infância, relutando muito mais para entrar na fase de experimentação, risco e sexo da adolescência.

Não tem jeito, na psicologia humana, tudo tem um preço. E se pensarmos na felicidade como o lucro psicológico, então os caminhos das novas gerações não têm valido a pena. Frente a esse cenário, o que uma pessoa com filhos pode fazer? Nada que fuja muito do bom senso que todo pai já sabe desde muito tempo: restringir o tempo que os filhos passam na frente de uma tela eletrônica é uma boa ideia, pois estimula interagir com o mundo e as pessoas fora dessa tela. A felicidade está mesmo a um clique de distância: do botão de desligar.

Fonte Oficial: Exame.

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