Consumo puxará atividade em 2018, com investimento como coadjuvante – Valor

SÃO PAULO  –  O consumo das famílias vai impulsionar a economia brasileira também em 2018, tendo o investimento como coadjuvante. Essa é a avaliação dominante de economistas de bancos e consultorias, que apostam em geral numa expansão do PIB na casa de 1% neste ano e um número entre 2,5% e 3% no ano que vem.

Com os juros em níveis baixos para padrões brasileiros, o menor endividamento dos consumidores, a melhora no mercado de trabalho e a reação do crédito, o consumo das famílias tende a crescer entre 3% e 4% em 2018, depois de avançar algo como 1% em 2017. O investimento, por sua vez, pode ter expansão até superior a 7% no ano que vem, nas estimativas de alguns analistas do setor privado, mas será a primeira alta depois de quatro anos seguidos de queda, ocorrendo em cima de uma base muito deprimida, numa economia ainda com muita capacidade ociosa.

A Fazenda tem uma visão mais positiva sobre as perspectivas do investimento — o secretário de Política Econômica, Fabio Kanczuk, vê espaço para a formação bruta de capital fixo (FBCF, medida do que se investe em máquinas e equipamentos, construção civil e inovação) ter um crescimento superior a dois dígitos em 2018.

No setor privado, a visão é de que o crescimento continuará a ser puxado pelo consumo privado, que responde por quase dois terços do PIB. “A contribuição do consumo das famílias para o crescimento será a maior, dado o peso desse componente da demanda na economia”, diz Alessandra Ribeiro, responsável pelas áreas de macroeconomia e política da Tendências Consultoria Integrada. Ela projeta uma expansão de 3% para a demanda das famílias e de 6,2% para o investimento. Com peso bem menor na economia, equivalente a algo como 16% no PIB, a FBCF vai contribuir de modo mais modesto para o crescimento, mesmo expandindo a um ritmo duas vezes mais forte que o consumo privado. Alessandra projeta uma alta de 2,8% para a expansão do PIB em 2018, dos quais quase 2 pontos percentuais deverão vir da demanda das famílias.

O economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall, também vê uma alta de 3% do consumo das famílias em 2018. Segundo ele, o mercado de trabalho deve continuar a melhorar, com avanço do emprego e da renda, impulsionando a massa salarial. Kawall também destaca o papel dos juros mais baixos e da melhora confiança do consumidor.

O Safra projeta que a taxa Selic, hoje em 7% ao ano, cairá mais 0,25 ponto percentual em 2018, terminando o ano em 6,75%. O mercado de crédito também deve beneficiar o consumo das famílias, avalia o banco, observando que já há uma melhora nos empréstimos para a pessoa física, movimento que tende a continuar em 2018. Para o PIB, Kawall acredita num crescimento de 2,5% em 2018, esperando uma alta mais fraca do investimento, de 4%. Para 2017, ele projeta uma retração de 2,5% da FBCF.

Embora deva fechar este ano no vermelho, o investimento começou a reação no terceiro trimestre, quando cresceu 1,6% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal. O pior, tudo indica, ficou para trás. O tombo registrado pela FBCF entre o quarto trimestre de 2013 e o segundo trimestre deste ano, contudo, foi assustador: uma queda de 29,5%.

Kawall observa que o setor de construção civil tem sido “o principal gargalo quando se trata da recuperação desse componente do PIB”. Para ele, “os investimentos do setor imobiliário e de infraestrutura devem retornar em ritmo bastante lento, considerando os estoques elevados no primeiro caso e as restrições fiscais do setor público como um todo no segundo caso, mesmo considerando a expectativa de alguma retomada em função das privatizações”. A situação é melhor no caso de máquinas e equipamentos, que mostram uma reação na produção e também na importação, diz Kawall.

Nas contas de Alessandra, a projeção de uma alta de 6,2% do investimento em 2018 embute uma expansão de 3,1% da construção e de 11,8% do consumo aparente de bens de capital (a soma da produção e da importação, excluindo a exportação).

O economista-chefe do UBS Brasil, Tony Volpon, espera um avanço de 6,5% da formação bruta de capital fixo, mesmo com um nível de ociosidade elevado na economia. Ele diz ver com ceticismo os índices de utilização de capacidade instalada. “São pesquisas que mostram a percepção sobre a capacidade ociosa do empresário”, afirma Volpon, destacando o aspecto subjetivo dessa avaliação, ainda mais depois de uma recessão tão longa.

Outro ponto, segundo ele, é que, num momento recessivo, os empresários tendem a deixar de lado primeiro a parte menos produtiva de sua linha de produção. Quando é necessário reativá-la, é possível que ela tenha sofrido uma depreciação muito grande e demande investimentos, avalia Volpon, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC). Por fim, ele diz que o investimento não se resume apenas a máquinas ou à construção, mas também em softwares, por exemplo. Numa economia em que serviços respondem por mais de 70% do PIB, isso tem relevância.

Mesmo com essa visão que mostra um pouco mais de otimismo em relação à FBCF, Volpon diz que a estrela da retomada ainda será o consumo das famílias, e não o investimento. Os consumidores já têm uma situação patrimonial melhor, enquanto as empresas ainda têm um nível de endividamento elevado, embora em declínio. Para Volpon, o consumo das famílias vai avançar 3,7% no ano que vem, ajudando a garantir um crescimento do PIB de 3,1% em 2018.

Um fator que pode refrear decisões de investimento no ano que vem é a incerteza em relação ao quadro eleitoral, o que traz interrogações sobre como a precária situação das contas públicas será encaminhada a partir de 2019. Boa parte dos cenários construídos pelos economistas de bancos e consultorias embute a aposta na vitória de um candidato comprometido com a agenda de reformas e a o ajuste fiscal. O Banco Safra, por exemplo, por exemplo, diz esperar que prevaleça “um candidato pró-reformas, afastando o populismo”.

Em relatório, porém, os economistas liderados por Kawall observam que “a incerteza política com relação à eleição presidencial de 2018 será anormalmente maior do que em episódios passados”. Na visão do banco, “se o compromisso com as reformas cessar e o populismo econômico for restabelecido”, o cenário desenhado para a economia mudaria drasticamente para pior. “O ciclo político será, portanto, o elemento-chave do cenário econômico brasileiro no próximo biênio.”

Para o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, a questão eleitoral pode limitar, mas não interromperá o investimento em 2018. Otimista quanto à atividade, Oliveira aposta numa expansão do PIB de 4,1% no ano que vem, destacando o impacto positivo que terá a política monetária. Os juros deverão ficar baixos por muito tempo, num cenário de inflação baixa. O mercado de trabalho continuará em recuperação e a retomada do crédito vai prosseguir, diz Oliveira, que vê o consumo com maior destaque no primeiro semestre — o investimento deve ganhar mais espaço no segundo. No cenário do economista do Fibra, a melhora da economia, com avanço do emprego e da renda, fará um candidato reformista ganhar espaço já no primeiro semestre, o que diminuiria as incertezas em relação ao quadro eleitoral. Isso é importante para entender a projeção de um crescimento superior a 4% em 2018; quem vê um quadro eleitoral mais incerto, que provoque volatilidade no mercado, com pressão sobre o câmbio, tende a projetar um número menor, na casa de 2%.

Ainda pelo lado da demanda interna, o consumo do governo deve ter variação próxima de zero em 2018, num quadro de restrição fiscal. A Tendências, por exemplo, projeta estabilidade para a demanda do governo no que vem.

Fonte Oficial: Valor.

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