O que esperar da ata do Fed – Valor

SÃO PAULO  –  Na última reunião do Federal Reserve (Fed), que terminou em 13 de dezembro, o tema mais latente eram os impactos possíveis da aprovação da reforma tributária do governo de Donald Trump, o que de fato aconteceu pouco depois no Congresso, no dia 20.

Em sua última conferência de imprensa após uma reunião de política monetária, Janet Yellen disse que o Fed, em geral, continuava a esperar que a economia cresça a um ritmo moderado e que “embora as mudanças na política fiscal provavelmente proporcionem algum aumento na atividade econômica nos próximos anos, a magnitude e o tempo dos efeitos macroeconômicos de qualquer pacote de impostos permanece incerto”.

Essa incerteza esteve no centro das discussões também entre analistas durante todo o ano passado. Embora não destacado como gatilho (porque há outras razões de fundo), o pacote fiscal foi notado nas elevações das projeções de crescimento do Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto). Apesar das revisões para cima, os participantes do comitê “concordaram que era muito cedo para saber quais mudanças nessas políticas seriam implementadas e como tais mudanças poderiam alterar as perspectivas econômicas”. No mais, também notaram que a incerteza “tornou mais difícil comunicar ao público o caminho provável da taxa de fundos federais”.

A ata desta reunião, que será publica hoje às 17 horas, pode deixar mais clara a forma e o teor desse debate, colocando luz sobre o que pode vir em termos de decisões a partir da posse no novo presidente da instituição, Jerome Powell, em 04 de fevereiro.

O conhecido dilema da flexibilização fiscal é o ‘tradeoff’ entre o impulso na atividade econômica e a alta da inflação. Além disso, a dinâmica da dívida dos Estados Unidos volta à cena, já que o impacto total dos cortes de impostos e outras medidas devem ficar em torno de US$ 1,5 trilhão.

Mas todos esses fatores estão “sub judice”. Analistas preveem que o impacto positivo sobre o crescimento deve ser modesto e rápido, algo como 0,3 ponto percentual em 2018 e 2019. A inflação, se o Fed estiver certo, só atingirá a meta no ano que vem. Além disso, a queda da carga tributária pode redundar lá frente em cortes no orçamento e a elevação da dívida em “downgrade” nos EUA pelas agências de rating. Sem dúvida, há ainda muito o que se calcular.

Além do quadro fiscal, outros temas devem ser monitorados hoje na ata do Fed:

– O próximo aperto

Depois de três aumentos dos juros em 2017 (para o intervalo de 1,25% a 1,50% ao ano), os participantes do Fomc sinalizaram expectativa de mais três apertos em 2018, o primeiro ainda no primeiro trimestre. Mas com Powell assumindo no começo de fevereiro, o Fed esperará mais um pouco para voltar a agir ou o comitê manterá o ‘cronograma’ de Yellen?

– A trajetória dos juros do Fed x Mercado

Na atualização das projeções econômicas, o Fomc apontou taxa média de juros de 2,1% neste ano, 2,7% em 2019 e 3,1% em 2020 – o que permanece acima da média do mercado – coisa que vem reiteradamente acontecendo desde o começo do ciclo de alta em dezembro de 2015.

A razão mais citada para esta diferença são os sinais mistos da economia, como o mercado de trabalho próximo ao máximo emprego e, a despeito disso, a inflação abaixo da meta. A ata poderia mostrar alguma novidade no debate dentro do Fomc, além dos já citados fatores transitórios que mantiveram os preços contidos nos últimos anos, apesar da imensa expansão monetária. A inflação poderia agora decolar com a ajuda do impulso fiscal? E se sim, o aperto monetário poderia ser abortado?

– Dissidências x Novo Fomc

A decisão do Fed em dezembro teve duas dissidências pela manutenção da taxa de juros, contra sete votos a favor da alta de 25 pontos base. Votaram contra o presidente do Fed de Chicago, Charles Evans, e o presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari. Ambos citaram a inflação fraca como motivo para a manutenção dos juros, mas ambos, considerados “doves”, não votarão mais neste ano. A ata deve mostrar detalhes das argumentações dos diretores.

Já entre os novos membros do Fomc, dois têm posições pouco conhecidas. Um é Thomas Barkin, ex-executivo da McKinsey & Co., que tomou posse como presidente do Fed de Richmond em 1º de janeiro. O outro é Raphael Bostic, que se tornou presidente do Fed de Atlanta em junho. Randal Quarles, responsável por assuntos regulatórios assumiu em outubro. Há ainda três vagas abertas no Fomc, mas Trump já indicou o economista Marvin Goodfriend para uma delas. Ademais, o atual presidente do Fed de Nova York e membro permanente do Fomc, William Dudley, alinhado com Yellen, anunciou aposentadoria antecipada para meados deste ano e ainda não há substituto paera seu cargo.

Em geral, o mercado espera que a composição do Fomc seja mais “hawk” em 2018, o que gera grande expectativa sobre os votos daqui para frente.

Fonte Oficial: Valor.

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