Cebola gaúcha aposta em qualidade superior – Jornal do Comércio

Berço da cebola no Brasil, já há algum tempo o Rio Grande do Sul não tem mais a liderança da cultura no País. A concorrência com a produção de outros estados, em especial das regiões Sudeste e Nordeste, faz com que os agricultores gaúchos precisem buscar alternativas para a colocação de seus produtos. Variedades tardias, cuja colheita se encaminha para o final, são uma das opções que permitem abastecer o mercado em momento de entressafra e, assim, recuperar poder de barganha no preço.

“Está acontecendo a expansão de áreas de cultivos onde não se produzia. Não temos como escapar, temos que ser eficientes, diminuir custo e produzir com qualidade”, analisa o engenheiro agrônomo da Emater-RS, Evair Ehlert. Segundo o agrônomo, as variedades de ciclos médios e tardios, com colheita entre dezembro e janeiro, têm mostrado atrativos de produtividade e de padrão comercial em casca e formato.

Além disso, porém, o próprio período da oferta tem se tornado outro grande diferencial. O produtor Rui Lemos, de Tavares, por exemplo, conta ter segurado as cebolas colhidas antes do fim do ano, à espera de um melhor preço que chegou junto ao Réveillon. “Não tinha como vender a R$ 0,45, R$ 0,50, que não cobria nem o custo de produção. Hoje, estou vendendo, no saco de 20 kg, caixa 3 (classificação de tamanho mais bem remunerada), a R$ 1,00”, comenta Lemos, que cultiva cinco hectares e calcula uma produtividade de 45 toneladas por hectare em sua propriedade. Segundo a Emater, o preço está variando entre R$ 0,60 e R$ 0,65 por quilo do produto pago ao produtor pelos intermediários.

Segundo Lemos, que é também o presidente do Subcomitê da Cebolicultura (grupo formado pelos municípios de Mostardas, Tavares, São José do Norte e Rio Grande), a alta no preço é derivada do desabastecimento nos principais centros consumidores. Em janeiro, as safras de estados como Bahia e Pernambuco, por exemplo, praticamente se encerraram, direcionando esses mercados às cebolas tardias do Sul. Mesmo dentro do Estado as variedades precoces também já encerraram a colheita, abrindo espaço também no principal comprador da cebola gaúcha, que é o próprio Rio Grande do Sul.

A situação, porém, não é recorrente, tendo sido beneficiada pelo excesso de chuvas no Nordeste, que fez com que os produtores de lá diminuíssem suas plantações. “Foi bom para nós, com eles diminuindo, temos essa entressafra deles para trabalharmos”, comenta Lemos, que vê a janela aberta até maio.

Grande parte dessa demanda, porém, acabará suprida pela cebola catarinense, maior produtor nacional e com capacidade de armazenagem que o Rio Grande do Sul ainda não possui. Como podem aguardar que o preço aumente ainda mais, os produtores de Santa Catarina não estão inundando o mercado nesse momento, beneficiando, de certa forma, a predominância da cebola gaúcha nestas primeiras semanas do ano.

Lemos comenta que muitos cebolicultores do Rio Grande do Sul ainda têm na memória o panorama antigo, quando a janela de liderança da cebola gaúcha começava em novembro, e isso tem dificultado a venda. “Isso se tornou mais difícil pelo acúmulo de estados produtores. Mas como o pessoal tem na memória que novembro era o melhor mês para a venda, tem plantado as variedades precoces e, aí, não conseguem competir com a precoce mineira, por exemplo, que é de boa qualidade”, argumenta o produtor.

A crença se mostra ainda mais infundada quando o clima no Nordeste é propício à cultura, como aconteceu no ano passado. Sem chuvas, a plantação naquela região aconteceu durante todo o ano, sem abrir, portanto, um período de entressafra. Em 2017, por exemplo, o preço do quilo do produto girava em torno de R$ 0,40, abaixo, portanto, até dos custos de produção.

Início de taxação maior sobre produto importado agrada aos cebolicultores nacionais

Outro fato que ajuda os produtores em 2018, de acordo com engenheiro agrônomo Evair Ehlert, da Emater-RS, é o início da taxação sobre cebolas importadas. Antigo pleito dos agricultores brasileiros, preocupados com a entrada de bulbos vindos principalmente da Holanda, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprovou taxas de 25% neste ano, que depois cairá gradativamente. O percentual será escalonado, ficando em 20%, em 2019, e 15%, em 2020, até voltar à normalidade, de 10%, em 2021.

Segundo o produto Rui Lemos, presidente do Subcomitê da Cebolicultura, a partir de 1 de janeiro, quando a taxação entrou em vigor, os produtores perceberam o aumento automático nos preços pagos pela cebola. Em 2016, a importação de cebolas chegou a 334,7 mil toneladas. Já no ano passado, até outubro, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o Brasil importou 62,12 mil toneladas.

Tendência já de décadas, a plantação de cebola no Rio Grande do Sul vem encolhendo a cada ano. Em 2017, por exemplo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram 7,9 mil hectares cobertos com a olerícola no Estado – menos da metade do calculado no primeiro ano da série, 1988, quando foram 16 mil hectares. Ao mesmo tempo, Santa Catarina, principal produtor, manteve sua área em torno de 21 mil hectares, e a Bahia cresceu de 7,5 mil para 10,1 mil hectares.

O movimento, de certa forma, se retroalimenta, pois o aumento da produção nos outros estados derruba o preço, o que faz com que os produtores gaúchos se desestimulem. “Se não tiver alta produtividade, não vale a pena plantar mais”, comenta o produtor e presidente do Subcomitê da Cebolicultura, Rui Lemos. A situação se torna desafiadora porque a produção local é praticamente toda de agricultura familiar, com propriedades de, em média, dois hectares, o que inviabiliza investimentos em maquinário e insumos, por exemplo.

Maior produtor do Estado, São José do Norte viu sua área plantada com cebola diminuir de 4,5 mil hectares em 1988 para 1,8 mil hectares em 2016 (último dado disponível), uma queda de 60%. As dificuldades de preço têm feito muitos agricultores apostarem na silvicultura, com a plantação de pinus nas terras arenosas, como alternativa para se sustentar no campo. Mesmo assim, o secretário da Agricultura e Pesca do município, Fabio Correa Martins, conta que a cebola continua sendo o carro-chefe no município. “A lucratividade não é mais tanta por unidade, porque a distância é muito grande em relação a Rio de Janeiro e São Paulo, mas ainda conseguimos entrar no mercado porque temos qualidade”, argumenta o titular.

A confiança nas características do produto é tanta que, com apoio de entidades como a Emater-RS, os quatros municípios que integram o Subcomitê buscarão a denominação de origem para a cebola produzida na península. “Nossa cebola continua com o atrativo pela localização. Vamos tentar a indicação geográfica, para conseguirmos nos inserir nesse mercado que está muito competitivo”, comenta o engenheiro agrônomo da Emater, Evair Ehlert.

Fonte Oficial: Jornal do Comércio.

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