Cotrijui afirma que fraudes agravaram a crise – Jornal do Comércio

No comando da Cotrijui desde o final do ano passado, Eugênio Frizzo vem recebendo críticas de produtores que não estão recebendo pelos grãos depositados no ano passado e é acusado de má gestão. Na semana passada, produtores chegaram a ameaçar ocupar a sede da empresa. O coro dos agricultores insatisfeitos, um grupo que responde pelo nome Cotrijui/Recuperação, ganhou apoio do Sindicato dos Comerciários da cidade nesta semana – os trabalhadores da cooperativa ainda não receberam o 13º salário e também não estão recebendo em suas contas os depósitos de FGTS. Apesar de estar em liquidação, a Cotrijui teria aumentado sua dívida de cerca de R$ 1 bilhão para atuais R$ 1,8 bilhões. A diretoria alega que a elevação do valor é fruto da descoberta de fraudes e irregularidades em gestões passadas, o que levou a atualização do passivo em quase 100%.

Jornal do Comércio – Que fraudes são essas que a diretoria da cooperativa alega serem a causa do aumento das dívidas?

Eugênio Frizzo – Alguns contratos firmados não estavam lançados na contabilidade. Outra situação era a não atualização de dívidas não pagas, de contratos e impostos. Fizemos um levantamento e conferimos os lançamentos, quando se chegou ao atual valor. A fraude foi de sonegação de informações. Por exemplo, se lançava no balanço uma dívida, de 2005, de R$ 100 milhões, não paga, mas voltava ao balanço de 2006 os mesmo R$ 100 milhões, sem considerar multas e juros.

JC – Essas fraudes e irregularidades ocorreram quando ou a partir de que ano?

Frizzo – Fiz um levantamento desde 1995 até 2016. Foi ao longo desse período, mas não sei precisar exatamente quando, porque são dados muito complexos. Não sou contador, não sei te dizer o tempo.

JC – Mas o senhor está na diretoria, entre presidência e outros cargos, há cerca de cinco anos. Nunca percebeu, neste tempo, que havia contas erradas?

Frizzo – Eu estou aqui há quatro anos, desde 2013. Em 2014 fizemos a moratória e passamos um ano e meio fazendo esses levantamentos.

JC – Ocergs e Fecoagro, entidades que representam o setor, dizem que nunca receberam nenhuma denúncia formal sobre esses problemas. A diretoria chegou a denunciar isso?

Frizzo – Não para eles. Fizemos a denúncia aos órgãos que achamos que eram competentes para o caso, inclusive para a Polícia Federal (PF). Isso tudo foi auditado e levamos documentos para os processos. Não sei precisar quando, entre 2013 e 2014. Mas não sei como estão os processos.

JC – Em dezembro, o Ministério Público (MP) recebeu acusações contra a diretoria da Cotrijui, por parte de produtores, e está investigando o caso para ver se abre uma denúncia também.

Frizzo – Mas aí é por outra questão, é uma coisa recente e que estamos cientes. Tanto que vamos ao MP prestar alguns esclarecimentos e resolver o caso em breve.

JC – No caso das fraudes contábeis, vocês, então, trabalharam muitos anos com dados errados?

Frizzo – Exatamente. Só agora temos os dados claros para falar sobre o caso e confiança para chegar numa mesa e negociar.

JC – Produtores e Sindicato dos Comerciários alegam essa dificuldade de sentar e negociar com a atual diretoria.

Frizzo – Não é assim. O Sindicato dos Comerciários esteve quarta-feira de tarde aqui na minha sala conversando.

JC – Mas isso somente após eles divulgarem um comunicado reclamando da falta de negociações e de não ser recebido.

Frizzo – É… Marcamos reunião depois, na verdade. O sindicato é uma situação. A dos produtores é outra. Quero que entendam quem eu sou. Sou o presidente da Cotrijui, que tem responsabilidade com os produtores ativos da Cotrijui. Com os associados que vão nas assembleias e depositam produtos nos nossos armazéns, que têm a credencial de ser da Cotrijui, eu converso abertamente. O meu compromisso é com os associados.

JC – Mas o produtor que deixou de ser ativo, em alguns casos, é porque perdeu a confiança, não tinha segurança de que iria receber, não?

Frizzo – Isso é um decisão dele. Se quiser voltar, o caminho está aberto. A porta está aberta.

JC – Parte das queixas é de que produtores entregaram o grão e não receberam. Eles temem que o grão nem exista mais.

Frizzo – Disseste bem: temem. O que acontece é que administramos em alta crise. Não temos crédito, não temos nada, só cobradores em cima da cooperativa. O produtor entrega o produto, vai para a empresa que compra e paga. Mas ocorrem penhoras bancárias quase todos os dias por parte de grandes compradores, com grandes escritórios jurídicos que conseguem isso. Temos fluxo de caixa muito apertado, que aguenta só três ou quatro dias sem entrar recursos. Quando ocorrem esses sequestros bancários, temos que reprogramar tudo. Nesta semana conseguimos pagar mais de R$ 1 milhão com os recurso que geramos. Na terça-feira pagamos todos os créditos que tínhamos para 18 de dezembro. É um processo que vai ser ajustado e não vai demorar muito tempo.

JC – Dentro de toda essa crise o grupo Cotrijui/Recuperação também acusa algumas inconsistências, como o caso de alguns membros da diretoria ganhando R$ 50 mil por mês. Isso existe?

Frizzo – Não confere.

JC – Quais são os salários médios da diretoria. Como estão em crise, imagina-se que estejam fazendo parte do esforço para recuperar o caixa também, não?

Frizzo – Não vou falar de salários porque são questões internas. Mas eu, por exemplo, sou remunerado pelo mesmo salário que era o do antigo diretor há cinco anos atrás. Ele ganhava determinado valor na época e eu hoje ganho o mesmo valor que ele.

JC – Mas não existe então salários próximos de R$ 50 mil então?

Frizzo – Não, de R$ 50 mil não existe.

JC – Mas acima de R$ 40 mil, existe?

Frizzo – Não vou te responder.

JC – Produtores se queixam de que um diretor chega a receber R$ 42 mil mensais.

Frizzo – Na verdade é o seguinte. Sabemos dessas situações, estamos fazendo rearranjos internos. Temos consciência da crise. E temos conselhos particulares para administrar essa crise. E temos que ter muito cuidado com essas coisas que se multiplicam por aí. Agora começa a safra, surgem essas coisas na imprensa e o produtor não entrega o grão. Para onde vai a cooperativa assim? Mais para baixo.

JC – Não é por causa da imprensa que o produtor deixa de entregar o grão, é pelo temor de não receber.

Frizzo – Eu entendo, não estou te culpando de nada.

JC – Inclusive, no ano passado, o antigo presidente fez um vídeo chamado o produtor a entregar o grão à cooperativa, que já estava em crise e deveria estar ciente de que talvez não conseguisse pagá-lo. Não foi arriscado fazer isso?

Frizzo – Já te coloquei porque não pagamos.

JC – Mas sabendo do cenário, ainda estimulou o produtor a entregar para a cooperativa.

Frizzo – Não se sabe o que vai ser o dia de amanhã, quando as coisas estão na Justiça não tem como prever.

JC – E quando irá melhorar esta crise tão drástica?

Frizzo – Logo. Essa questão do fluxo de caixa é para logo. Ainda antes do fim de 2018. Além de apagar incêndios, temos um grupo de trabalho para buscar soluções de médio e longo prazo, e estamos buscando na Justiça uma forma de acabar com essas penhoras bancárias.

 

Fonte Oficial: Jornal do Comércio.

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