Ibovespa sobe 2% com aposta em condenação de Lula; dólar cai – Valor

SÃO PAULO  –  O mercado já sabia que o julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia abrir espaço para um rali para a bolsa a depender do resultado. Mas investidores optaram por antecipar esse movimento positivo, surpreendendo até os próprios operadores, que esperavam uma manhã de ritmo mais lento e com alguma cautela nos movimentos, a exemplo do que aconteceu ontem.

O que se vê hoje, no entanto, é um movimento de euforia, que levou o índice para cima dos 82 mil pontos pela primeira vez, sustentado por um forte giro de negócios. Comportamento que deixa no radar a possibilidade, inclusive, para que haja alguma “realização no fato”, ou seja, para que o entusiasmo caso a condenação de Lula se confirme seja mais contido. Especialmente considerando que, dada a demora na leitura do voto do relator, João Pedro Gebran Neto, há risco de o desfecho não pegar o mercado aberto.

Às 13h35, o Ibovespa subia 2,30% aos 82.532 pontos. Mas chegou a tocar a máxima de 82.658 pontos mais cedo. Durante boa parte do dia, poucas ações operaram em queda, numa demonstração de que o movimento foi de “comprar bolsa” de forma geral.

O volume financeiro também ganhou tração durante a manhã e, antes mesmo que Nova York começasse a operar, chegou a projetar R$ 10 bilhões no dia, o que supera a média recente, de pouco mais de R$ 6 bilhões.

O que explica o movimento é que o mercado chegou ao “Dia D” muito protegido: reduziu exposição no mercado à vista e fez hedge no futuro e em opções. Hoje, à medida que o relator começou a ler seu voto e deu sinais de que manteria a condenação de Lula, essas posições foram revertidas, provocando uma forte alta das ações. “O relator está sendo bem duro, negou tudo da defesa”, diz um profissional. “Ele não está deixando nenhuma brecha e diminui o risco de um terceiro voto a favor de Lula”, diz outro operador.

Profissionais destacam também o ambiente externo muito positivo que abre espaço para essa reação tão positiva. As bolsas americanas operam em alta firme, enquanto o dólar cai com força ante divisas emergentes, inclusive o real. “O mercado local acompanha, essencialmente, o movimento externo”, diz o gestor de um fundo paulista.

Em meio à onda de euforia, ações de empresas estatais se destacam com forte valorização e também forte giro de negócios. Banco do Brasil ON está entre as maiores altas do dia e avançava 4,10%, com forte giro de R$ 346 milhões.

Já Petrobras deixa de lado a queda do petróleo no mercado internacional e opera em alta de 3,50% (PN) e 3,61% (ON).

Também entre as maiores altas do dia, Eletrobras ON sobe 3,81% e Eletrobras PNB ganha 3,54%, reagindo também à notícia de que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) suspendeu a determinação de que a estatal realizasse um pagamento à Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), de R$ 2,9 bilhões até o fim de janeiro.

Segundo profissionais, as ações de estatais são especialmente sensíveis ao noticiário político e, por isso, se beneficiam da aposta crescente de que o ex-presidente Lula será condenado.

Dólar

Alvo de operações mais defensivas nos últimos dias, o dólar retoma a trajetória de queda nesta quarta-feira e ronda os menores níveis desde outubro do ano passado. Os investidores se animam com a evolução do julgamento do ex-presidente Lula, que por ora caminha conforme as expectativas de condenação do petista, o que pode tirá-lo da disputa de outubro.

Na mínima, o dólar comercial caiu até R$ 3,1821, menor nível desde 20 de outubro quando tocou R$ 3,1719. Em termos percentuais, a baixa intradia de 1,69% foi a mais acentuada desde 19 de maio quando o dólar chegou a recuar 3,89%.

Por volta das 13h35, o dólar comercial caía 1,39%, a R$ 3,1918. O contrato futuro para fevereiro, por sua vez, baixava 1,50%, a R$ 3,1925.

A melhora dos ativos domésticos reflete também ajustes de operações defensivas que foram montadas nos últimos dias e também em um contexto externo bastante favorável. Numa lista de 33 divisas globais, todas ganhavam terreno ante a moeda americana. O real, por sua vez, tinha o melhor desempenho do dia, seguido pelo peso colombiano e a libra esterlina.

A confiança dos agentes financeiros num desfecho positivo do julgamento durante o discurso do relator do caso no TRF-4, João Pedro Gebran, que ratificou as sentenças aplicadas na primeira instância. Apesar de já esperada, a postura de Gebran inibiu as preocupações com uma possível surpresa e abriu caminho para melhora do mercado. “O voto está sendo sinalizado com a desconstrução do argumento da defesa sobre a suspeição do julgamento”, diz um operador.

Após o relator, é a vez de Leandro Paulsen se posicionar e, em seguida, Victor Laus concluirá o processo de votação. Os magistrados definem a situação jurídica do ex-presidente Lula, sentenciado em 12 de julho de 2017 a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro pelo juiz federal Sergio Moro.

A decisão no tribunal deve afetar as expectativas para o quadro eleitoral de 2018. O alinhamento entre todos os magistrados diminui as chances de Lula disputar a Presidência, sendo este o cenário principal de boa parte dos investidores. No entanto, não é um ponto final no longo caminho a ser percorrido até o resultado das urnas. Por isso, não se descarta alguma realização de lucros mesmo com a confirmação das expectativas.

O julgamento de Lula deixa a percepção de um ambiente “bimodal” daqui para frente. Isso porque a participação do petista com chances de vitória na disputa eleitoral eleva dúvidas sobre o futuro da política fiscal e de inflação. Por outro lado, o impedimento da candidatura do ex-presidente poderia abrir caminho para que os demais candidatos se alinhassem à atual agenda econômica.

Para Marcelo Giufrida, sócio-gestor da Garde Asset Management, o risco de perdas hoje é maior que o potencial de ganhos. “Hoje pode ser um dia mais intenso no caso de uma absolvição de Lula, placar dividido pela condenação ou até pedido de vistas”, diz o especialista. “A melhora viria no caso de um cenário de 3 votos a zero pela condenação, mas a evolução pode vir ao longo de prazo, enquanto se esclarecem as formalidades em torno da possibilidade de candidatura”, acrescenta.

 

 

Juros

O prêmio cobrado no mercado de juros futuros tem a maior queda desde o começo do ano. A forte queda do dólar, tanto aqui quanto no exterior, se somou à animação dos investidores com os primeiros comentários dos desembargadores que julgam o caso de Lula.

O movimento é mais acentuado nas taxas de vencimentos mais longos, que refletem as leituras sobre questões mais estruturais. O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 projetava taxa de 9,660%, queda de 12 pontos-base ante o nível de 9,780% no ajuste anterior. Esta é maior baixa desde a primeira sessão do ano.

A redução do prêmio fica evidente na chamada inclinação da curva de juros, que mede a diferença entre taxas longas e curtas. A distância entre o DI janeiro de 2021 e o DI janeiro de 2019, que captam as leituras sobre riscos eleitorais, fica em 201,5 pontos-base, numa queda de 8,5 pontos. Se mantido o movimento até o fim do dia, será a maior queda desde 2 de janeiro quando recuou 13,5 pontos.

Fonte Oficial: Valor.

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