ANÁLISE: Nos EUA, reforma tributária favorece 1,5% dos trabalhadores – Valor

SÃO PAULO  –  Na semana passada, durante sua presença no Fórum Econômico de Davos, na Suíça, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu elogios por conta da reforma tributária que conseguiu aprovar no país no fim do ano passado. 

No entanto, apesar do corte nominal de 35% para 21% na alíquota de imposto paga pelas empresas, um levantamento da Capital Economics reforça críticas internas de que as mudanças beneficiam apenas uma pequena parcela mais rica da população.

“A alta do mercado de ações e a onda de companhias anunciando aumentos de salários e bônus desde que a reforma tributária foi sancionada elevou o otimismo e reavivou o ‘espirito animal’, para prover um grande impulso econômico”, diz a consultoria.

Ademais, há um otimismo generalizado com as perspectivas de crescimento. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, elevou novamente as projeções para o PIB americano nos próximos anos, “impulsionado principalmente  pela resposta do investimento aos cortes nos impostos sobre o lucro das empresas. Mas há dúvidas quanto ao impacto real da reforma sobre a atividade”, reforça a consultoria. 

No curto prazo, a repatriação de lucros é a parte da reforma que “têm maior potencial para impactar a economia”. Depois da sanção da reforma tributária, “várias empresas anunciaram aumentos salariais ou bonificações únicas para os funcionários” – mais de 2 milhões de trabalhadores receberam algum tipo de benefício aparentemente por conta das medidas que viraram lei. “Mas muitas dessas histórias simplesmente refletem o estágio maduro do ciclo econômico e, em todo caso, ainda apontam que quase todos os benefícios imediatos dos cortes de impostos serão aplicados aos acionistas”.

Segundo dados do Comitê Conjunto de Taxação do Congresso americano (JCT, na sigla em inglês), as mudanças estabelecidas pela reforma tributária ajudarão as empresas a economizarem US$ 30 bilhões neste ano, o que representa somente 0,2% do PIB do país. Além disso, de acordo com a consultoria, a maioria dos anúncios feitos pelas companhias não resiste a uma avaliação mais próxima. 

O anúncio da Apple, por exemplo, que prometeu investir US$ 30 bilhões e criar 20 mil empregos nos EUA nos próximos cinco anos, marca uma desaceleração em seu ritmo de contratações no país, de 30 mil em média nos últimos cinco anos; além disso, o investimento não foi tão diferente no mesmo período. 

Em resumo, os dois milhões de empregados que receberão aumentos de salários ou pagamento de bônus representam somente 1,5% da força de trabalho do país. “Mesmo que o aumento médio fosse de US$ 5 mil, os anúncios até agora somam US$ 10 bilhões em salários mais altos, o que é apenas uma pequena fração do potencial total a ser repatriado este ano”, pontua a Capital Economics. “Isso está bastante em linha com o que esperávamos com base na experiência passada”. 

Um estudo do The National Bureau of Economic Research (NBER) sobre os cortes tributários de 2004, descobriu que cada um dólar repatriado resultou em um aumento quase idêntico nos pagamentos de dividendos dos acionistas, com apenas uma pequena fração direcionada investimentos ou elevações de salários, lembra a consultoria. “A alta no mercado de ações certamente sugere que os investidores acreditam que este será o caso novamente”.

Mas a realidade é que as decisões de investimentos e contratações das empresas estão influenciadas primeiramente pelo estado da economia, pondera a Capital. “Com a dificuldade de encontrar trabalhadores qualificados, as companhias estão sendo forçadas a pagar mais para contratar e reter talentos. Portanto, suspeitamos que muitos desses anúncios de aumentos de salários aconteceram independentemente do corte de impostos”. 

Olhando o longo prazo, os impactos positivos são menos claros se concentram no aumento da força de trabalho, o que daria impulso à produtividade. Entretanto, de novo, a evidência que brota da experiência de outras economias também não é encorajadora. Japão, Canadá, Reino Unido e muitos outros países reduziram as taxas de impostos sobre as empresas nas últimas décadas e não viram um impulso no investimento, na produtividade ou ao crescimento do PIB, alerta a Capital.

Fonte Oficial: Valor.

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