‘Falta de investimento é culpa do crédito caro’ – Jornal do Comércio

Espécie de termômetro da indústria brasileira, uma vez que atua como fornecedor para todos os outros segmentos fabris, a indústria de máquinas e equipamentos demonstra preocupação com o custo dos financiamentos no Brasil. De passagem por Porto Alegre, na terça-feira passada, para reunião da entidade, o presidente executivo nacional da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, criticou a adoção da Taxa de Longo Prazo (TLP) pelo Bndes. O alto custo do capital, na opinião do executivo, é o principal inibidor da volta dos investimentos no País.

Como contrapartida, a entidade está entregando cartilha aos presidenciáveis propondo a substituição da Taxa Selic por uma taxa de curto prazo que gire apenas em torno da inflação e bônus pelo risco País, de forma a estimular aplicações de longo prazo. “Temos que caminhar para o liberalismo econômico, tudo bem, mas vamos começar pelo sistema financeiro, que é o que trava tudo”, argumenta Velloso. À frente de um setor com 1,5 mil indústrias associadas, Velloso prevê um crescimento de 5% a 8% em faturamento em 2018.

Jornal do Comércio – Qual a expectativa do setor para 2018?

José Velloso – Começamos o ano otimistas, mas existem alguns problemas ainda. O consumo aparente de máquinas e equipamentos (comprados no País, sejam nacionais ou importados), de 2013 a 2017, caiu pela metade. O Brasil parou de investir. A formação bruta de capital fixo, que vinha em uma taxa de 20% do PIB ao ano, caiu para 15%. Nossa expectativa para este ano ainda é de uma taxa baixa, em torno de 16%. O lado bom é que o Brasil tem a inflação controlada e voltou a gerar empregos, ainda que muito poucos. O Brasil voltou a crescer, e esperamos que o PIB do País aumente em torno de 2,8%. O problema é que, embora os índices estejam melhorando, tem um número que não melhora, que é o investimento. Era inimaginável que o Brasil chegasse a um patamar de 15% do PIB de investimentos, e agora estamos começando a nos acostumar com isso. E isso é um problema, porque aí o Brasil vai mergulhar em uma nova crise. As empresas brasileiras só terão competitividade se renovarem seu parque industrial.

JC – E por que o investimento não reage?

Velloso – Ele deveria reagir, porque está há muito tempo represado. Antes da crise, tínhamos muitos gargalos – de mobilidade, aeroportos, rodovias, energia -, que desapareceram, porque entramos em uma recessão. Agora, com um crescimento de 3%, os gargalos voltarão a aparecer. E as empresas terão que investir. Uma empresa que fica cinco anos sem investir fica defasada tecnologicamente, se torna improdutiva, e seu produto fica desatualizado. Então, se a infraestrutura não investir, aparecem os gargalos. Já se as empresas não investirem, serão alijadas do mercado.

JC – Mas por que não estão fazendo? Por expectativas?

Velloso – Uma coisa é a interferência política no ânimo dos empresários – que, para mim, é página virada. Claro que teremos as eleições, que podem vir a complicar, mas problemas políticos mesmo tivemos em 2017. O maior problema, porém, não é esse. Enquanto o custo do financiamento for mais caro do que o retorno que ele dará, o empresário não vai investir. Com a mudança para a Taxa de Longo Prazo (TLP), que é apenas a base da taxa de juros, as taxas médias de um Finame, principal linha para máquinas e equipamentos, estão de 14% a 15% ao ano. Com uma economia sem inflação, isso inibe qualquer investimento, porque o lucro será menor do que o custo do financiamento. O segundo grande problema é a questão do crédito, que está muito restrito. O empresário quer comprar máquinas, melhorar a produtividade, mas, na hora que faz a conta, ele se inibe.

JC – A Abimaq se posicionou contra a TLP.

Velloso – Não vejo sentido em um banco de fomento, que é a principal ferramenta de política industrial, ter custo de mercado. Quando você encareceu as linhas do Bndes, cortou a principal fonte de desenvolvimento do País, o lugar onde, desde a década de 1960, é feita a política industrial do Brasil. Primeiro, eu torço para estar errado. Mas acredito que, quando o Brasil voltar a caminhar, caso o investimento não retorne, o próximo governo terá que rever isso.

JC – Outro ponto que o setor critica é o possível fim na desoneração da folha.

Velloso – Achamos que será um erro. Estamos trabalhando para que, no relatório do PL que trata do tema, nosso setor não seja incluído. Nosso setor é intensivo em mão de obra. Fizemos um material, que levamos à Fazenda e aos deputados, que mostra que salários são 20% da receita líquida de vendas. O INSS patronal era 20% do salário total, então dá para dizer que era 4% da nossa receita líquida. Com a desoneração, passou a 2,5% do faturamento. Para o nosso setor foi muito importante, porque pude reduzir 1,5% do preço de venda para ter o mesmo resultado. No entanto, quando a lei foi criada, foi criado junto a Cofins importação, que cai agora se cair a desoneração. É uma alíquota de 1% sobre os bens importados daqueles setores que foram desonerados. Como nosso setor importa muito, tem uma balança comercial extremamente negativa, e essa Cofins importação é alto. Em 2016, a renúncia fiscal da queda dos 4% para 2,5% foi de R$ 540 milhões. O Cofins importação arrecadou R$ 731 milhões. Ou seja, a lei, no fim, aumentou a arrecadação do governo em R$ 190 milhões. Se acabar com a desoneração no nosso setor, vai perder receita.

JC – E como avalia a suspensão da aplicação do antidumping sobre o aço por um ano, decidida pela Camex?

Velloso – O antidumping foi pedido para aços planos laminados a quente, que são os mais utilizados na economia brasileira, importados de China e Rússia. Nosso aço, no Brasil, é de 30% a 60% mais caro do que na Europa, então já começamos com perda de competitividade no setor manufatureiro que usa aço. Com a sobretaxa do antidumping, o preço ia subir ainda mais. A decisão técnica foi pela aplicação, mas a Camex alegou interesse público para suspender. A máquina ia ficar mais cara, a agricultura ia ficar mais cara, a logística ia ficar mais cara. Teria aumento no custo dos investimentos e aumento na inflação. Daí vem o interesse público. O preço do aço no mundo está subindo bastante, as correlações de força estão se alterando. Como vai justificar, em 2018, a aplicação de antidumping sobre um relatório de 2015? Não acredito em revisão nisso, até porque não vai aumentar a importação. Se você consome de 4 a 5 milhões de toneladas de aço por ano e importa em torno de 150 mil do mundo todo, não é isso que está fazendo diferença. Não há enchente de aço importado no Brasil. Há enchente, isso sim, de máquinas chinesas. Eu não poderia comprar aço chinês pelo antidumping, mas a máquina pode vir inteira com o aço chinês. Em 2016, o Brasil importou 5 milhões de toneladas de aço em forma de máquina, fora as outras coisas, geladeiras, fogões, autopeças. Não acredito mesmo que isso seja revisto.

JC – E a cadeia de Óleo e Gás ainda tem futuro?

Velloso – Tem. Trabalhamos muito na discussão do Repetro. Conseguimos um avanço na redação final da lei. Pela primeira vez desde 1999, teremos isonomia tributária para o produto feito no Brasil frente o importado. O importado entrava em admissão temporária, então não pagava ICMS e tinha suspensão dos impostos federais. Agora, vai pagar a mesma coisa que o nacional no ICMS, e conseguimos isonomia nos impostos federais, porque o Repetro veio até o terceiro elo da cadeia, que são as máquinas e equipamentos. Mas gostaria de lembrar que o setor de Óleo e Gás é o mais subsidiado da economia brasileira. No Repetro, veio dentro um Refis específico para a Petrobras, uma depreciação hiperacelerada. O Repetro é a Disneylândia da desoneração tributária em um setor tão rico como é o de petróleo.

JC – Há um Projeto de Lei em regime de urgência na Câmara com novas regras para conteúdo local.

Velloso – O deputado Jerônimo Goergen (PP-RS) apresentou este PL, que entendemos ser importante. O conteúdo local praticamente não existe mais para bens, porque agora, só com serviços, já se atinge o percentual exigido. E, por uma briga política do ministro Fernando Coelho Filho (Minas e Energia), que se ajoelhou a um lobby das petrolíferas, o Brasil vai explorar petróleo em águas profundas, que não gera emprego em si, e essa riqueza do povo brasileiro vai ser praticamente toda exportada, porque não existe investimento no Brasil hoje em refino. Você está incentivando a energia fóssil, tem o risco ambiental de vazamento. Só tem coisa ruim para o País, e o País não fica com nada. Só os royalties, mas quem vai ganhar é só Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo. Quem perde muito com isso, aliás, é Pernambuco, que é o estado do ministro, porque está sucateando uma indústria naval que se instalou lá. 

Fonte Oficial: Jornal do Comércio.

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