Análise: Como o Fed de Powell reagiria a um período de queda das ações – Valor

SÃO PAULO  –  Nos últimos quatro pregões em Nova York, marcados pela volta da volatilidade e por quedas expressivas dos índice no começo da semana, uma dúvida rondou analistas. O Federal Reserve (Fed) – e eventualmente outros bancos centrais – darão alguma resposta, farão algum pronunciamento, tomarão alguma medida diante de quedas expressivas dos mercados?

Em geral, ninguém acredita que entramos em uma nova crise, portanto, não seria o caso de novas (ou conhecidas) providências agora. Mas os participantes do Fed sempre mencionam questões de mercado, ou para refutar teses de “bolhas de ativos”, ou assuntos relacionados ao câmbio, por exemplo. Restaria saber o quão importante esses movimentos são para a tomada de decisões.

Estudo de Anna Cieslak and Annette Vissing-Jorgensen, a primeira da Duke University e a segunda da University of California, Berkeley (publicado em 11 abril de 2017), debate exatamente esse tema. “The Economics of the Fed Put”, analisa a economia por trás do “Fed Put”, ou seja, a tendência de baixa das ações como um fator de predição de acomodação da política monetária.

As autoras mostram que, a partir de meados dos anos 1990, os retornos de ações são uma ferramenta “estatisticamente mais poderosa” de mudanças de metas dos Fed Funds do que as divulgações de notícias macroeconômicas comumente seguidas. Essa é uma revelação interessante e que vale somente para períodos de baixas nas bolsas, não o contrário.

Para chegar a essa conclusão, as autoras analisaram as atas e transcrições de reuniões do Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto) e argumentam que o retorno das ações “causa” a política do Fed.

“Os participantes do Fomc são mais propensos a se preocupar com o mercado de ações após o declínio do mercado e a frequência de menções negativas no mercado de ações em documentos [do Comitê] prevê os cortes na taxa de juros”, dizem.

A razão é o impacto do efeito-riqueza sobre o consumo (e, portanto, sobre a atividade econômica), além do impacto sobre o investimento das empresas (e de forma relacionada, ao custo de capital). “Usamos análises textuais para saber se o Fed vê o mercado de ações meramente como um antecipador de resultados futuros da economia ou um “driver” da economia”. Achamos irresistível evidência a favor deste último [ponto]”, comentam.

As autoras seguem avaliando se o Fed pode reagir demais ao mercado de ações comparando a sensibilidade do mercado de ações às previsões de crescimento, desemprego e inflação do Fed com a sensibilidade do mercado às previsões do setor privado. Os retornos ‘intermeeting’ do mercado de ações antecipam o tom das discussões do Fed nas reuniões subsequentes do Fomc, avaliam.

A atenção do BC para o mercado de ações aumenta desproporcionalmente quando há quedas fortes no período, consequentemente, um tom negativo do mercado prevê cortes significativos na taxa de juros, pontuam as economistas.

O estudo mostra uma avaliação sobre se a taxa de juros responde mais ao mercado de ações do que o que às atualizações das expectativas macroeconômicas do Fed. “Usando uma regra de Taylor, achamos que as atualizações de projeções de crescimento do Fed e as expectativas de inflação incluem cerca de 80% do efeito do mercado de ações na meta de juros”. 

Este resultado confirma o pensamento do Fed sobre o mercado de ações como motor da economia” e [o BC] atualiza suas expectativas das condições econômicas futuras em conformidade. As autoras concluem que “num momento em que foi criticado por se concentrar muito nos preços dos ativos, seria útil para o Fed estabelecer se acredita que mercado de ações deveria ter um impacto independente na meta de juros além de seus efeitos nas expectativas de crescimento e inflação”.

A depender do comportamento dos mercados daqui para frente, Powell poderá ter a chance de responder à essa questão. A primeira grande oportunidade será nos dias 28 de fevereiro e 1º de março, em seu primeiro testemunho semestral ao Congresso americano.

Fonte Oficial: Valor.

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