Era digital tem missão de mitigar problemas ambientais e sociais – Jornal do Comércio

A maioria das crianças nascidas hoje provavelmente viverá no ano de 2100. E como estará o mundo daqui algumas décadas? Os habitantes estarão cada vez mais imersos na tecnologia, poderão criar suas jornadas de trabalho e privilegiarão viver novas experiências para que a vida valha a pena? Ou estaremos diante de uma realidade pior que a de hoje, com falta de recursos naturais básicos? Esses são alguns dos questionamentos colocados na berlinda pelo estudo O Estado do Futuro 19.0, realizado pelo Projeto Millennium e considerado, pela ONU, como o atlas mundial do futuro. Temas como Inteligência Artificial (IA), biologia sintética, robótica, nanotecnologia, trabalho, terrorismo, mudanças climáticas, população, gênero, ética global e a próxima economia são contemplados no material. Os resultados foram apresentados na semana passada no Brasil, no inovaBra habitat, espaço de coinovação do Bradesco recém-inaugurado em São Paulo pela futurista Rosa Alegria. “Esse é o mapa de referências e indicadores para quem toma decisão, e que mostra onde devemos investir, que leis aprovar ou o que devemos criar em termos de inovação para termos um mundo melhor no futuro”, comenta. Rosa é diretora do Projeto Millenium no Brasil e pioneira em futurismo no Brasil. Ela é Master of Sciences em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston, Clear Lake (EUA), e considerada uma das três futuristas mulheres mais reconhecidas da América Latina.

Jornal do Comércio – Que balanço podemos fazer do mundo atual e dos pontos em que a sociedade precisa avançar?

Rosa Alegria – O mundo está avançando em alguns aspectos e retrocedendo em outros. Estamos muito bem, por exemplo, quando pensamos no fim do analfabetismo. Também temos um mundo com menos doenças e menos miséria (a pobreza extrema caiu de 51%, em 1981, para menos de 10% hoje). A energia está no sinal verde, avançamos muito na matriz energética. Atualmente, 50% dos investimentos em energia feitos no mundo estão direcionados para energia limpa, o petróleo e o carvão estão ficando para trás. Por outro lado, têm retrocessos que precisam ser consertados. O maior deles é a desigualdade social, que é a maior de toda história. O modelo econômico atual precisa ser revisto se quisermos reverter esse quadro. Outro aspecto negativo é que estamos exaurindo recursos naturais e esquentando o planeta. Os últimos seis anos foram os mais quentes da história.

JC – Qual é o papel das novas tecnologias para ajudar o mundo?

Rosa – Os retrocessos são mais graves e importantes que os avanços, porque são coisas que sustentam a vida. A questão da água, por exemplo, é decisiva, mas acreditamos que, nos próximos 10 anos, teremos capacidade de resolver esse problema. Uma das respostas para essas grandes transformações que precisam ser feitas é o avanço tecnológico. As tecnologias exponenciais têm que intensificar a sua direção no sentido da mitigação dos problemas ambientais e sociais. Não adianta termos avanços com tecnologias como robótica, IA e computação quântica se tivermos, de outro lado, um mundo mais desigual.

JC – Qual é o melhor caminho para que essas tecnologias emergentes deem a resposta necessária?

Rosa – Vivemos uma mudança de era que vem pela automação e pela digitalização radical, que chamamos de Indústria 4.0. Não tem como desenvolver tecnologias se não tivermos um olhar de convergência de todas elas. Um dos mais importantes vetores é a aproximação entre a Inteligência Artificial e a Computação Quântica, que estão transformando a nossa realidade e provocando toda essa curva exponencial de mudanças. Um aspecto importante é o futuro do trabalho com a ascensão da robótica e de outras novas tecnologias que estão substituindo o ser humano. Até poderemos tirar proveito dessa questão, que pode ser trágica, mas teremos que agir como uma sociedade que se reinventou, que buscou prazer no trabalho. Isso não é sobre futuro. Precisamos agir logo, senão teremos 50% de desemprego nos próximos 30 anos (de acordo com o estudo, na medida em que os custos de mão de obra aumentarem e os da IA e dos robôs diminuírem, as taxas de desemprego nas fábricas e nos serviços aumentarão. Portanto, gerar novos modelos de economia parece inevitável, se a ideia é evitar as catástrofes sociais do desemprego estrutural global em larga escala).

JC – A ascensão das startups – muitas delas, pensando mais no impacto social dos seus negócios – será aspecto decisivo para a construção de um futuro mais igual?

Rosa – Com certeza. Temos que celebrar esse novo fenômeno das jovens empresas inovadoras que estão surgindo e que estão fora dos padrões do passado. São empreendedores com outras lógicas, sem aquele pensamento linear das operações tradicionais. Essas startups chegam com uma urgência por soluções, por respostas, e esse novo modelo pode trazer muito aprendizado para as grandes. O grande desafio é que elas mantenham essa vitalidade social e ambiental, e não se deixem levar pelo lucro no curto prazo e do crescimento não sustentável. Muitas dessas startups têm natureza nobre e estão dando grandes lições no velho modelo econômico.

Fonte Oficial: Jornal do Comércio.

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