Análise: Mercado vê BCE longe do aperto monetário – Valor

SÃO PAULO  –  O Banco Central Europeu (BCE) começou efetivamente a mudança de sua orientação para a política monetária, que embutia a perspectiva de injeção vultosa de liquidez em parâmetros soltos de volume e tempo por meio de seu programa de flexibilização quantitativa (ou “QE”, na sigla em inglês).

Ao remover a indicação de que poderia ampliar as compras de ativos se houvesse necessidade, a autoridade monetária da zona do euro delimitou as aquisições de bônus soberanos e privados ao teto de 30 bilhões de euros ao mês em média até pelo menos setembro, mas manteve aberta a possibilidade de ampliar este prazo. Dessa forma, sua intervenção no mercado de títulos continuará bastante relevante, mas não crescerá se houver, eventualmente, uma frustração na recuperação da atividade econômica ou na elevação da inflação até sua meta de 2,0% ao ano – foco do mandato do BCE.

Alguma mudança no “forward guidance” era esperada pelos investidores nesta reunião por causa da conjunção de vários fatores. O principal é a performance corrente mais animadora da economia na área do euro, evidenciada por dados amplos, como a maior utilização dos fatores de produção, queda na taxa de desemprego e a atividade nos setores industrial e de serviços orbitando o terreno da expansão, como no caso dos índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês).  

Outro fator de peso é que este mesmo cenário havia feito com que o conselho do banco central dissesse, na ata da reunião de dezembro, que revisaria os parâmetros da política (expectativa para o programa de compras de ativos e para a normalização dos juros) “no começo deste ano”. Como na reunião de janeiro nada foi feito, a reunião de março passou a embutir possibilidade maior de algum movimento. 

Estes dois argumentos davam aos “hawks” do Conselho argumentos para pressionar o BCE para que assumisse uma postura menos acomodatícia, caso dos representantes dos bancos centrais da Alemanha (Jens Weidmann), da Áustria (Ewald Nowotny) e da Holanda (Klaas Knot).  Por outro lado, a inflação subjacente (núcleo) ainda baixa (1% em fevereiro na base anual) e projeção do BCE de 1,4% da medida “cheia” até 2019 dá um forte argumento aos “doves” para advogar pela cautela em sua comunicação com o mercado, incluindo aí o presidente Mario Draghi. 

No conjunto da obra, o comunicado “hawish” e a entrevista coletiva “dovish” de Draghi se compensaram, mantendo frouxas as condições do mercado nesta quinta-feira. As bolsas europeias fecharam a sessão com ganhos expressivos e o euro recuou fortemente do pico de US$ 1,245 no momento da divulgação do comunicado da decisão, para US$ 1,230 no fechamento da quinta-feira (queda de 1%).

Aparentemente leitura dos agentes é que o BCE ainda está longe do aperto monetário e as revisões do PIB dão peso a essa visão. Embora tenha reconhecido que o ritmo de crescimento projetado agora é maior para este ano (2,4% contra 2,3% anteriores), para os dois anos seguintes, a autoridade da zona do euro manteve as taxas esperadas em 1,9% e 1,7%, respectivamente, mesmo panorama de dezembro. 

Um dos pontos altos da entrevista coletiva foram as críticas pouquíssimo veladas de Draghi ao protecionismo do governo de Donald Trump, se alinhando às autoridades da União Europeia, que devem reagir e recorrer da sobretaxação das importações americanas do alumínio e do aço.

Fonte Oficial: Valor.

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