Brasil estuda recorrer à OMC contra os EUA – Jornal do Comércio

Relações Internacionais


Notícia da edição impressa de 15/03/2018.
Alterada em 14/03 às 21h16min

Brasil estuda recorrer à OMC contra os EUA

Temer participou do Fórum Econômico Mundial para América Latina

/BENEDIKT VON LOEBELL/WORLD ECONOMIC FORUM/DIVULGAÇÃO/JC

O presidente Michel Temer disse que, se o governo de Donald Trump não aceitar negociar exceções no aumento de tarifas de importação de aço, o Brasil vai entrar com uma representação contra a política norte-americana na Organização Mundial do Comércio (OMC) junto com outros países que sofreram prejuízos com a medida. “Nós aqui somos contra todo e qualquer protecionismo. Somos pela abertura plena”, afirmou Temer na abertura do Fórum Econômico Mundial para América Latina, realizado em São Paulo.

O Itamaraty já havia cogitado recorrer à OMC, mas é a primeira vez que o presidente fala sobre o assunto. Temer disse ainda que vai ligar para Trump em breve, propondo a abertura de negociações sobre o aumento da tarifa do aço. Ele afirmou que o mandatário americano estaria aberto a conversas.

A briga na OMC é a última alternativa em análise pela diplomacia brasileira. O processo costuma demorar anos e, se vitorioso, o Brasil ganharia o direito de retaliar setores americanos que exportam para o País. A medida pode se tornar um problema para as empresas brasileiras ao elevar seus custos com insumos importados.

O ministro Aloysio Nunes, das Relações Exteriores, disse que conversas com os demais países afetados pela medida americana sobre um eventual processo contra os EUA vem ocorrendo em Genebra, sede da OMC. Até agora, o Brasil já tratou do assunto com a União Europeia e a Índia.

“A primeira aposta do governo brasileiro é o diálogo. O Brasil é um país amigo dos Estados Unidos”, afirmou Aloysio durante o painel. O Itamaraty vem conversando com empresas americanas importadoras do aço brasileiro para que elas pressionem o Congresso em Washington a conseguir uma exceção para o Brasil.

O ministro disse que também pediu uma reunião com Robert Lighthizer, chefe do USTR (US Trade Representative, o órgão que cuida das negociações comerciais dos Estados Unidos), pois as novas regras americanas de importação de aço ainda não estão claras.

Geraldo Alckmin (PSDB), governador de São Paulo também criticou indiretamente a medida americana e defendeu as reformas conduzidas pelo governo Temer, como as alterações na legislação trabalhista. “Não é fácil fazer reformas. Existe um conservadorismo enorme e nunca o nosso País precisou tanto de uma agenda reformista”, afirmou o pré-candidato à presidência. A reforma da Previdência será um assunto urgente para o próximo presidente.

No evento, Pelé recebeu o título de cidadão global das mãos do fundador do fórum por ser um símbolo do “jogo limpo” – em mais uma alusão à medida protecionista imposta pelos Estados Unidos. O jogador foi aplaudido três vezes pela plateia, formada por brasileiros e estrangeiros, duas das quais de pé.

 

‘Possibilidade de litígio existe, mas não é a única saída’

O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, afirmou que a sobretaxa na importação de aço e alumínio anunciada pelos Estados Unidos aumentou a chance de uma “guerra comercial” entre países, mas que acredita na possibilidade de um diálogo para mitigar os impactos da medida tomada pelo presidente norte-americano, Donald Trump.

Em entrevista durante o Fórum Econômico Mundial para América Latina, na capital paulista, o diretor afirmou que conversou com o presidente Michel Temer e que o Brasil não descarta nenhuma possibilidade sobre a mesa como resposta à sobretaxação. “Na conversa que eu tive com o presidente, ficou evidente que o Brasil não descartou nenhuma possibilidade, inclusive um litígio na Organização Mundial do Comércio; é uma possibilidade, mas não é a única”, destacou.

O diálogo, reforçou, pode evitar atritos irreversíveis entre países que negociam com os Estados Unidos. Azevêdo declarou se preocupar com o “efeito sistêmico” da medida americana. “Se houver efetivamente uma situação de quebra de diálogo e adoção de medidas unilaterais em retaliação, coisas desse tipo, isso me preocupa porque pode causar um efeito dominó que é difícil de prever a extensão e a duração.”

O governo dos Estados Unidos tem sinalizado a disposição de negociar a sobretaxa de aço, mas ainda não existe clareza sobre como será a conversa. A informação foi dada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que disse que a medida não afetará o crescimento econômico de cerca de 3% previsto este ano para o Brasil.

Meirelles afirmou que a sobretaxa ao aço imposta pelos EUA é negativa tanto para o comércio mundial quanto para a própria indústria americana, reduzindo sua competitividade. “A taxação aumenta o preço de produção nos EUA a prejudica o consumidor.” A declaração de Meirelles também foi feita durante o Fórum Econômico Mundial.

O presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Benjamin Steinbruch, cobrou do governo medidas para proteger o mercado brasileiro de um eventual fluxo de entrada de produtos chineses – não só o aço – ao País. Segundo ele, o jogo comercial global foi alterado depois que o presidente Donald Trump assinou medida para sobretaxar o aço e o alumínio importado.

“O que está sendo discutido neste momento é emprego e renda. Essa questão, por parte do governo, tem que ser imediata. Eu duvido que o governo não faça nada. Levantaram a bola para o governo, em um ano de eleição”, disse o executivo, em reunião com analistas e jornalistas na sede da companhia.

O presidente da CSN colocou a medida de elevar as taxas de importação do aço e alumínio nos EUA como uma oportunidade para o Brasil e que o País só será penalizado caso não se posicione e acabe sendo destino de aço importado, principalmente vindo na China.

Tarifa de importação de Trump é ‘loucura’, diz Armínio Fraga

O economista Armínio Fraga qualificou as mudanças nas tarifas de importação de aço feitas pelo governo de Donald Trump como uma história conhecida que nunca trouxe prosperidade para ninguém. “Isso é uma loucura”, disse, antes de participar de um dos painéis do Fórum Econômico Mundial para América Latina.

O economista disse ainda que o Brasil tem sido protecionista desde sempre e “não deu em nada”. Em sua avaliação, o cenário não é bom, em especial no momento em que o Mercosul está no meio de uma discussão comercial com a comunidade europeia – o que vê como uma oportunidade “fantástica”. Ele disse esperar que o Brasil não saia de uma rota de conclusão desse acordo, pois a sensação é que a discussão está evoluindo.

Em relação à economia brasileira, Armínio disse que o problema maior está no campo fiscal, com todos os governos, não só o federal, bastante fragilizados. Para além da questão fiscal, o economista avalia que o Brasil estaria numa fase de penúria de crescimento da produtividade e do investimento.

Na avaliação dele, o quadro pode ser destravado por um novo governo com mandato para “arrumar as coisas”. Disse ainda que o País precisa muito mais do que uma reforma previdenciária. “É (reforma da) Previdência, tributária e ainda tem aspectos trabalhistas, financeiros, regulatórios, mais educação, saúde, segurança. É tudo”, disse.

Armínio afirmou que prepara junto com a economista e a ex-secretária da Fazenda de Goiás, Ana Carla Abrão, uma agenda com propostas para o País, aberta ao candidato que quiser abraçá-la.


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Fonte Oficial: Jornal do Comércio.

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