Mercado discute se é o momento de Fed sinalizar quatro altas de juros – Valor

SÃO PAULO  –  Na primeira reunião presidida por Jerome Powell, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) pode fazer um movimento importante, que é explicitar maior confiança na evolução da inflação em direção ao seu objetivo, já que o mercado de trabalho está indo de vento em popa. Essa visão pode vir na elevação da mediana de expectativas para os apertos monetários neste ano, de três para quatro. A decisão será divulgada nesta quarta-feira, às 15 horas. 

Trata-se de um cenário visto como possível por muitos analistas, mas teria efeitos importantes sobre os ativos, já que há, precificada, probabilidade de apenas 37% nos Fed Funds futuros. Há uma semana, essa chance era menor, de 33% e ontem, de 34%.

Esse crescimento das apostas em um Fed mais “hawkish” (inclinado a mais aperto monetário) pode ser visto hoje na alta dos rendimentos dos títulos mais curtos e mesmo na ponta de 10 e 30 anos, além da pressão do dólar.

A questão de fundo são as condições para que isso aconteça já e, por haver divergências nas opiniões dos agentes, há mais confiança (olhando para os preços dos ativos) em uma transição mais suave, que poderia ser expressa por um comunicado mais assertivo na necessidade da normalização mais rápida alinhado com um grupo de projeções mais positivas para a inflação e seu núcleo, por exemplo. O tempero seria um discurso mais ameno de Powell, centrado nos riscos que ainda existem para a recuperação de forma a atender aos dois mandatos do Fed, quais sejam, a meta de inflação de 2% e o máximo emprego.

Em dezembro de 2017, quando foram atualizadas pela última vez as projeções, o Fomc, esperava trilhar um caminho gradual de aumento das taxas que permitisse a continuidade da expansão da economia sem superaquecimento. O gráfico de pontos (ou “dot plot”) apontava mediana de três aumentos de juros neste ano e mais dois em 2019 e em 2020. Significa que seis participantes do Comitê previam três aumentos em 2018 e quatro esperavam quatro apertos ou um pouco mais. Para uma mudança da mediana para este ano é necessário que pelo menos um dos membros mude de posição.

O quadro fiscal mais expansionista pode dar impulso a esta mudança. Não apenas os cortes previstos de impostos corporativos no âmbito da reforma tributária, aprovados em 20 de dezembro (US$ 1,5 trilhão em 10 anos), mas a aprovação em fevereiro, também pelo Congresso, de gastos extras de US$ 300 bilhões em dois anos. Essa expansão explicaria a perspectiva de que a inflação ganhe impulso nos próximos meses e seria a explicação perfeita para acelerar a normalização da política monetária.

Mas quem mudaria o ‘voto’ por quatro altas?

Na sabatina de Powell e em seu primeiro testemunho ao Congresso no mês passado dois pontos chamaram atenção. O primeiro foi sua promessa de continuidade no gradualismo do ajuste dos juros defendido por sua antecessora, Janet Yellen. Afinal, depois de uma década do estouro da crise, a reação da economia só pareceu convincente a ponto de se retirar os estímulos há pouco tempo; apenas em setembro do ano passado o Fed anunciou a redução paulatina do balanço ao cessar, com uma programação definida, os reinvestimentos dos títulos que forem vencendo ao longo do tempo. O outro ponto foi o presidente do Fed ter dito que suas “perspectivas pessoais para a economia se fortaleceram desde dezembro”, evidenciando sua maior confiança. 

Outros diretores do “board”, como Lael Brainard, reconhecidamente de viés “dovish” (inclinado ao afrouxamento monetário), disse na semana passada que “a economia de hoje é a imagem espelhada do ambiente que enfrentamos há alguns anos”. “No período anterior, fortes ventos frontais diminuíram o ritmo da recuperação e pesaram sobre a política monetária. Hoje, com os ventos frontais se transformando em ventos de cauda, o contrário pode ser verdadeiro”. Ademais, disse Brainard, “com maior confiança na consecução da meta de inflação, os aumentos graduais contínuos na taxa dos fundos federais provavelmente serão apropriados”, disse ela.  Também o poderoso presidente do Fed de Nova York, William Dudley, disse que “quatro altas de 25 pontos-base no ano não é nada agressivo, seria gradual, no meu ponto de vista”.

Além dessas falas, o próprio comunicado da reunião de janeiro e posteriormente sua ata mostraram mudanças sutis na linguagem, entendidas como preparatórias para uma alteração mais forte do “guidance” da política monetária. No primeiro documento, inseriu uma nova linguagem referente a “mais” elevações graduais de juros. No segundo, sugeriu que uma “maioria” de participantes estava inclinada a mais aumentos neste ano. 

O imbroglio para o Fed nesta reunião é avaliar se a hora é agora para mudar a sinalização para ações futuras sem apertar as condições de mercado, o que, no fim, também afetaria as condições mais amplas da economia.

Fonte Oficial: Valor.

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