Mulheres buscam espaços – Jornal do Comércio – Jornal do Comércio

Mulheres marcaram presença nos discursos das empresas no ano passado, mas as estatísticas apontam que poucas estão no ambiente corporativo. Nos cargos estratégicos, o avanço aconteceu, mas foi pequeno. Segundo a consultoria Deloitte, a participação feminina em conselhos de administração de 64 empresas passou de 6,3% para 7,7%, entre 2015 e 2017.

Aumentou, de fato, a preocupação com o assunto. Pesquisa da Exec, especializada em seleção de altos executivos, aponta que 22% das companhias passaram a exigir pelo menos uma mulher na disputa final de vagas. “O ano de 2017 foi quando a discussão amadureceu (a respeito de diversidade), sobretudo nas multinacionais”, diz Ricardo Sales, consultor de diversidade e pesquisador da ECA/USP. Para ele, o principal desafio dos próximos anos será aumentar as iniciativas de inclusão das pessoas mais vulneráveis. “Travestis e transexuais, mesmo aptos às vagas, ainda têm acesso limitado às organizações”, afirma.

Algumas empresas relatam dificuldade em contratar. É o caso da Avianca Brasil, que, em julho, recrutou 13 pilotas, depois que o presidente, Frederico Pedreira, notou a pífia participação feminina nas cabines de pilotagem. A participação delas, que varia entre 1% e 3% no setor, era de 1,6% na companhia.

Não foi fácil, segundo Pedreira. Além de resistências internas – como argumentos de que as mulheres não necessitam de tratamento especial para ter sucesso -, faltavam candidatas que cumprissem as exigências mínimas de horas de voos. Entre os 1.683 currículos recebidos, só 5% eram de mulheres. O presidente da empresa justifica que, como a formação de pilotos é muito cara e as mulheres, historicamente, ganham menos e carregam dupla jornada, é compreensível que elas sejam minoria entre os candidatos.

No Grupo Pão de Açúcar, além de priorizar a contratação de executivas, uma das saídas para elevar o número das profissionais foi criar uma meta atrelada aos bolsos dos diretores. Desde 2016, ter mais mulheres em cargos de liderança é uma obrigação e influi diretamente na remuneração variável recebida por eles. A meta é uma das iniciativas do comitê criado com este objetivo. Em 2015, apenas 21% dos cargos de liderança eram ocupados por mulheres, fatia que subiu para 28% em 2017. A estimativa é ter 38% do quadro total de chefias ocupado por elas até 2020.

A mudança de postura em relação à diversidade também evoluiu na condução das marcas. Maíra Liguori, cofundadora da Think Eva, consultoria especializada no tema, com Avon e Bradesco entre seus clientes, alerta que estratégias de comunicação levianas podem ser um tiro no pé para grandes companhias.

“Como já há um discurso se formando na cabeça das consumidoras, existe uma vontade das marcas de se conectarem a isso. Mas, muitas vezes, a maneira como elas usam esse discurso é feita de forma leviana, como se fosse uma modinha passageira”, afirma.

Segundo Liguori, quando as empresas fazem isso de forma errada, as pessoas que estão acordadas para o problema percebem. E o impacto negativo pode ser grande. Um exemplo, diz ela, é o da farmacêutica Sanofi, que, em 2015, lançou a campanha “Sem mimimi – Se você não tem tempo pra mimimi, descubra Novalfem”. A propaganda do remédio para cólicas foi cancelada após virar alvo de críticas nas redes sociais.

A mesma Sanofi, no ano passado, contratou uma mulher grávida para um cargo elevado na área de recursos humanos. “Fui contratada quando estava no segundo mês de gravidez. Infelizmente, isso é uma coisa rara. Sempre que conto a história, as pessoas ficam surpresas. Mas o meu caso é um sinal de que a escolha foi feita por performance, e não pelo momento”, diz Ana Carolina Ranzani.

O impacto econômico da desigualdade de gênero no mercado de trabalho preocupa algumas entidades. O presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Luis Alberto Moreno, afirmou que, se os países latino-americanos conseguissem equiparar a participação feminina à masculina no mercado de trabalho, o PIB (Produto Interno Bruto) da região teria um aumento de 16%.

“A igualdade de gênero não é importante apenas do ponto de vista de igualdade. Também pode ser visto como um enorme dividendo para o crescimento”, afirmou Moreno.

“Por muitos anos, o tema de participação da mulher no mercado de trabalho foi visto apenas sob a perspectiva da equidade, do ponto de vista dos direitos. Mas é necessário também dizer que é bom negócio, faz sentido para os países, as economias e as empresas”, disse Isabel Alvarado, vice-presidente e ministra de relações exteriores do Panamá. Para ela, as mulheres deveriam ter uma presença no mercado equivalente à sua representação populacional, próxima a 50% do total.

Mas, segundo um relatório sobre gênero divulgado recentemente pelo Fórum Econômico Mundial para a América Latina, no ritmo atual de progresso, vai demorar 64 anos para que essa igualdade seja atingida na América Latina. Por isso, Luiza Trajano, presidente do conselho de administração da Magazine Luiza, defende que sejam adotadas cotas para forçar que esse processo ocorra mais rapidamente. “É um mecanismo transitório para acertar uma desigualdade”, afirmou Trajano.

Segundo a executiva, a representatividade feminina é ainda menor em posições mais importantes. Ela mencionou que a presença de mulheres em conselhos de empresas listadas na bolsa de valores é de apenas 7% no Brasil. “Se tirarmos as donas e filhas das donas como eu, cai para 3%. Vai demorar 110 anos para a gente ter 20% de mulheres em conselhos”, afirmou Trajano.

O debate sobre a igualdade de gênero tem ganhado força à medida que pesquisas recentes indicam o impacto econômico da queda da discriminação. A consultoria PwC divulgou, há pouco tempo, um estudo que estima que a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) poderia incrementar seu PIB em 12% se cada país do grupo atingisse o patamar de presença feminina no mercado da Suécia, uma das nações onde a igualdade entre gêneros se destaca.

Fonte Oficial: Jornal do Comércio.

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