Mercado se preocupa com novo governo descomprometido com reformas – Valor

SÃO PAULO  –  A primeira metade do pregão na bolsa brasileira nesta sexta-feira (6) foi marcada por bastante instabilidade, mas com o Ibovespa sempre oscilando no terreno negativo. O exterior, onde a aversão a risco voltou a dominar, e o noticiário político nacional, ainda carregado de incertezas, explicam o vaivém dos preços.

Às 14h, o Ibovespa cedia 0,97%, aos 84.385 pontos, depois de tocar a mínima de 83.833 pontos.

No exterior, as bolsas americanas também acentuavam a baixa. Os receios com uma guerra comercial entre China e Estados Unidos ainda permeiam os negócios e afetam sobretudo os ativos de risco. Ontem (5), em um novo desdobramento do caso, o presidente americano, Donald Trump, decidiu recomendar ao Departamento de Comércio do país que aplicasse mais US$ 100 bilhões em taxação contra a China.

Além disso, investidores digerem os números do mercado de trabalho americano. Foram geradas 103 mil vagas em março, ante o consenso de 178 mil. Ao mesmo tempo, a renda média salarial cresceu 2,7% ao ano.

Entre os destaques negativos pontuais estão Ambev (-2,83%) e Eletrobras, tanto ON (-9,89%) quanto PNB (-9,92%). No caso da estatal de energia, os papéis reagem à informação de que o ministro das Minas e Energia, Paulo Pedrosa, está deixando o cargo. Esse movimento, na visão dos investidores, enfraquece a expectativa de que haja a privatização da companhia. Para a sua vaga, está cotado o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Moreira Franco – visto como um nome mais político.

Dólar

Qualquer estímulo à venda de dólares motivado pela maior probabilidade de prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou em segundo plano nesta sexta-feira, quando um firme movimento de aversão a risco no mundo e a falta de visibilidade no campo político-eleitoral no Brasil impuseram mais cautela ao mercado.

O dólar sobe pelo quinto pregão consecutivo – mais longa sequência de altas desde agosto de 2016. A moeda já beira o patamar de R$ 3,38, nas máximas em quase 11 meses. O real sofre hoje a terceira maior queda entre as principais divisas globais e, na semana, amarga o segundo pior desempenho. No ano, já ostenta a oitava maior desvalorização dentre 33 pares.

Enquanto o mercado avalia as chances de Lula preso, a impressão é que ainda há um longo caminho à frente. O mercado continua a dar cada vez mais peso a outros fatores de risco do lado eleitoral. O clima de indefinição inclui a percepção de falta de vigor de uma candidatura de centro-direita que mantenha em curso a agenda de reformas.

Nesse sentido, não ajudou a informação de que Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, foi preso nesta manhã pela Polícia Federal. Ele é ex-diretor da Dersa e e foi denunciado pelo Ministério Público Federal por desvios na estatal paulista. Paulo Preto é suposto operador de campanhas do PSDB, partido do presidenciável tucano Geraldo Alckmin.

“Há uma ideia no mercado de que Alckmin tem que emplacar. Mas não é isso que está acontecendo”, diz Joaquim Kokudai, gestor na JPP. Segundo ele, mais do que os desdobramentos imediatos da possível prisão de Lula, é a ausência de força da candidatura de centro-direita que está deixando o mercado mais nervoso.

No cenário externo, o mercado acordou com novos temores de intensificação de guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas do mundo: EUA e China.

Às 14h12, o dólar comercial subia 0,80%, a R$ 3,3680. Na máxima, a cotação foi a R$ 3,3787, maior nível desde 18 de maio do ano passado.

Juros

A sensibilidade à cena política no Brasil e a piora do ambiente externo criam um cenário propício para a alta dos juros futuros hoje.

Antes da abertura, até se esperava uma sessão mais positiva já que o ex-presidente Lula estaria cada vez mais distante do quadro eleitoral. Conforme mandato de prisão expedido ontem, o petista tem até as 17 horas de hoje para se entregar à justiça. Com isso, iniciaria a pena de 12 anos e 1 mês pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção.

A ansiedade com a prisão do ex-presidente foi crescendo ao longo da manhã. Até por isso, aumentou a atenção sobre o vaivém de manifestantes no sindicato dos metalúrgicos, onde Lula se encontra. Além disso, os investidores estão atentos a possíveis manobras na justiça que possam prolongar o processo.

“Não é hora de fazer posição no mercado, é hora de esperar definição, mesmo que se pague um valor mais alto”, afirma o sócio e gestor da Leme Investimentos, Paulo Petrassi.

Por volta das 14h14, o DI janeiro/2021 subia a 8,080% (8,020% no ajuste anterior), se acomodando ante a máxima do dia, de 8,110%; o DI janeiro/2023 avançava a 9,140% (9,05% no ajuste anterior), depois de tocar 9,190%.

Mesmo com a prisão de Lula, um dos riscos é de que o cenário de juros baixos se torne insustentável com a eleição de um governo pouco comprometido com reformas. A falta de perspectivas para ajustes econômicos traria tamanho impacto nos mercados financeiros, principalmente no câmbio, que a Selic voltará aos dois dígitos já no começo do ano que vem.

De acordo com estudo da MCM Consultores Associados, a taxa básica terá de ser elevada para 10% no primeiro trimestre de 2019, permanecendo por algum tempo neste nível. Isso representa um salto de 3,75 pontos percentuais ante a mínima histórica de 6,25% ao ano, que é esperada para a Selic neste ano.

Fonte Oficial: Valor.

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