Crédito cooperativo cresce na contramão do setor bancário – Valor

SÃO PAULO  –  Enquanto o crédito bancário encolheu no ano passado pelo terceiro ano seguido em termos reais, os empréstimos nas cooperativas tiveram expansão de 15% em 2017. O segmento terminou o ano passado com 9,2 milhões de associados, 5,8 mil pontos de atendimento — maior que a rede do Banco do Brasil, com 4,8 mil — e representando 4,6% dos depósitos do Sistema Financeiro Nacional (SFN). A meta é disputar espaço com os grandes bancos e chegar a 10% de participação até 2025. As cooperativas já respondiam, no final do ano passado, por 3,27% do crédito do SFN.

Entre as razões para a expansão do cooperativismo estão a melhora na segurança, depois da instituição do Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop), além de aumento da governança e competitividade em taxas e tarifas em relação aos bancos tradicionais.

Além disso, o movimento de desbancarização e o surgimento de “fintechs” também acaba favorecendo os bancos cooperativos, nos quais o lucro é devolvido ao cliente, na medida do uso dos serviços.

Apesar do crescimento contínuo nos últimos anos, essa participação ainda é muito pequena quando comparada com economias maduras da Europa Ocidental e da América do Norte. Na França e na Alemanha, por exemplo, as cooperativas participam com 60% e 20%, respectivamente, dos depósitos totais. Nos Estados Unidos, onde o cooperativismo virou bandeira de movimentos como o Occupy Wall Street, de protesto contra os grandes bancos, atinge 33%.

No Brasil, a região Sul do país lidera com participação de 17,2% das cooperativas nos depósitos, devido à forte presença do agronegócio.

Modalidades

A carteira de crédito está concentrada nas pessoas físicas, que representam dois terços do total. As principais modalidades são financiamentos rurais e agroindustriais, empréstimos pessoais com e sem consignação em folha e outros créditos. As operações voltadas a pessoas jurídicas concentram-se em empréstimos para capital de giro.

Atualmente o Brasil tem cerca de mil cooperativas de crédito e quatro confederações: Cresol, Unicred, Sicredi e Sicoob, sendo que as duas últimas são as únicas que possuem bancos. A maior parte dos pontos de atendimento fica nas regiões Sul (45% do total) e Sudeste (36%).

Para João Tavares, presidente-executivo do Banco Cooperativo Sicredi, um dos apelos das cooperativas de crédito é ter custo mais baixo, porém com experiência e um atendimento mais próximo. Ele aponta que o Sicredi cresce, atualmente, a uma taxa anual de quase 20%.

“Com a crise, a maioria dos bancos puxou o freio de mão, mas nossa atividade é dentro da comunidade, que não parou por causa da crise mundial”, comenta.

Maior competitividade 

 Segundo Lucio César de Faria, diretor-executivo do FGCoop, o sistema de cooperativas ganhou confiança nos últimos anos ao melhorar a governança, após a exigência do Banco Central de profissionalização das diretorias, além da criação do próprio fundo garantidor do setor, com a possibilidade de indenização ao cliente em caso de quebra de uma cooperativa.

“Sem dúvida, igualou as condições de competitividade com o sistema bancário comercial. Inclusive, até o valor da indenização é igual: de R$ 250 mil por CPF e CNPJ”, diz Faria.

“As taxas médias das cooperativas são menores do que as do banco comercial. O cooperativismo tem a vantagem do giro local dos recursos, que ajudam a desenvolver a região ou o setor de atividade do cooperado”, completou Faria, ex-funcionário de carreira do BC.

Na avaliação de Marco Aurélio Almada, presidente do Bancoob (do sistema Sicoob), ao atingir o patamar de 10% dos depósitos do SFN a atuação das cooperativas de crédito “mudaria de patamar”. “Nós passaríamos a ser um ator que ainda trabalha em ‘gaps’ do sistema, mas ajuda a regular e melhorar a justiça financeira na relação com os clientes”. Ele aponta que a expansão acelerada do setor não é um “voo de galinha” e vem acontecendo de maneira sólida.

O executivo do Sicredi afirma que, ao terem um relacionamento mais próximo com o cliente e a comunidade em que estão inseridos, os bancos cooperativos conseguem mensurar melhor os riscos e isso os ajuda a ter uma inadimplência que é quase a metade do SFN. Entretanto, também signifca um custo operacional maior.

O índice de eficiência é superior a 60% (nesse indicador, quanto menor o porcentual, melhor), enquanto nos grandes bancos tradicionais fica perto de 40%. Por essa razão, nos últimos anos o setor tem investido pesado em tecnologia e automatização de processos.

Mesmo assim, o Sicredi não pensa em reduzir o número de agências, como tem ocorrido com os bancos tradicionais. “Vai chegar o dia em que as transações financeiras serão commoditizadas. O diferencial competitivo não será o empréstimo, mas sim o relacionamento com as pessoas”, aponta Tavares.

Fonte Oficial: Valor.

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