Mercado questiona plano do BC e dólar bate R$ 3,77; Bolsa cai 2% – Valor

SÃO PAULO  –  “Não faz o menor sentido o dólar abrir a R$ 3,71 e ainda de manhã se aproximar de R$ 3,78, já depois da alta de ontem.” Essa é a visão de um profissional de um banco em São Paulo, cujo receio com a velocidade de alta da moeda americana começa a se tornar consenso no mercado financeiro, que assiste dia após dia à disparada incansável da divisa nas últimas semanas – e mais especificamente nesta. No mercado de opções, já apostas de que o dólar possa alcançar R$ 3,95 ainda neste mês.

Às 13h36, o dólar comercial subia 1,06%, a R$ 3,7414. Na máxima, foi a R$ 3,7760, novo pico intradia desde 16 de março de 2016 (R$ 3,8523).

Apenas nesta semana, o dólar salta 3,7%. No mês, os ganhos vão a 6,6%, enquanto, no ano, a cotação avança 12,7%.

O real permanece entre as moedas de pior desempenho nos mercados globais de câmbio nesta sexta-feira. Junto com lira da Turquia, país que sofre com inflação de dois dígitos e grande ceticismo em relação à política econômica, quadro diferente do brasileiro.

Analistas associam o novo dia de pressão no câmbio a uma certa frustração com o fato de o Banco Central (BC) não ter reforçado a oferta de dólar no mercado, mesmo depois de a moeda ter subido no dia anterior, apesar da surpresa com a estabilidade da Selic em 6,5%.

“Não há nada em termos de fundamento econômico que justifique o movimento do câmbio. Já passou da hora de o BC intervir com mais força”, diz o profissional do banco em São Paulo. De acordo com ele, conter a volatilidade e corrigir distorções no movimento do câmbio “faz parte da essência” do que o BC tem dito nas últimas semanas. “É um movimento sem fundamentação micro nem macro, e se continuar vai contaminar todo o mercado, vai causar pânico”, alerta.

O BC manteve hoje a oferta de 5 mil contratos “novos” de swap cambial. A expectativa é que, até o fim do mês, haja injeção líquida de US$ 3 bilhões no mercado de dólar futuro. Mas analistas já discutem a necessidade de atuações nos moldes da “ração diária” que vigorou entre 2013 e 2015.

A percepção do mercado de que o dólar pode voar ainda mais alto é expressa de várias formas, entre elas via dados do mercado de opções de câmbio da B3. Esse mercado ainda não tem giro expressivo diário, mas as mudanças de posições podem ser vistas como um sinal da alteração de humor e de estimativas de investidores.

No fim de abril, por exemplo, a opção de compra de dólar vencimento junho com “strike” (preço de exercício) em R$ 3,5000 era a que concentrada a maior quantidade de contratos: 9.185 ao todo. Ontem, o vencimento com maior posição já apontava dólar a R$ 3,6500. Mas o que chama mais atenção é a abertura de posições com preço de exercício em R$ 3,9500 (3.200 contratos no total). No fim de abril, essa posição estava zerada.

Na prática, alguns investidores já veem cenários em que a taxa de câmbio pode testar R$ 3,9500, o que deixaria a marca psicológica de R$ 4,0000 – até pouco tempo atrás impensável) a um passo.

Ainda na B3, números revelam que a demanda por dólares tem partido sobretudo de investidores estrangeiros. Apenas na quinta-feira, eles compraram, em termos líquidos, US$ 1,321 bilhão – considerando contratos de dólar futuro e cupom cambial. É a maior compra líquida para um dia desde o último dia 24 de abril (US$ 2,556 bilhões).

Com isso, os estrangeiros elevaram a posição líquida comprada em dólar – ou seja, que ganha com a valorização da moeda americana – a US$ 25,592 bilhões. É o maior patamar desde 22 de outubro de 2015 (US$ 26,588 bilhões), período em que os ativos brasileiros sofriam com crise de confiança no país, o que acabou levando o dólar em setembro daquele ano a uma máxima histórica perto de R$ 4,25.

E não bastasse a dinâmica doméstica negativa para o câmbio, o exterior segue marcado por forte desvalorização de divisas emergentes. E, pelo menos para o Bank of America Merrill Lynch, esse movimento vai continuar. Estrategistas do banco americano acreditam que o rali do dólar no mundo ainda não está concluído e que o sentimento para as moedas emergentes não se encontra “suficientemente” negativo para sinalizar oportunidade de compra dessa classe de divisas.

Juros

Os juros curtos voltam a operar sob forte pressão, dando coninuidade à disparada no dia anterior. Nesta sexta-feira, entretanto, são as taxas mais longas que concentram a piora no mercado de DI. Agora, é esse o trecho da curva de juros que revive os solavancos mais acentuados desde que as delações de executivos da JBS ameaçaram a continuidade do governo de Michel Temer.

Num sinal evidente desse solavanco, a taxa projetada pelo DI janeiro de 2023 volta a bater os dois dígitos. No momento de maior nervosismo, a taxa subiu para 10,290%, que não era visto desde a sessão de 13 de dezembro de 2017. A alta era de 57 pontos-base e, se mantida até o fechamento, será a mais intensa desde o estouro da crise política em 18 de maio quando subiu 175 pontos.

Um dos principais catalisadora é o comportamento do câmbio. De acordo com operadores, o novo salto do dólar, a R$ 3,77 hoje, bateu em cheio nos contratos de DI, sinalizando a piora da percepção de risco. E enquanto o BC não sinaliza uma atuação mais firme para conter a instabilidade nas moedas, os compradores de dólar prevalecem no mercado.

Para o estrategista-chefe do banco Mizuho do Brasil, Luciano Rostagno, o risco é de que esse movimento prejudique a atividade econômica, que já se encontra num momento de recuperação fragilizada. “Ainda que a Selic esteja num patamar baixo, os contratos de DI já incorporam o início de um aperto monetário para até antes da eleição.”

Com isso, diminui o impulso na atividade que a Selic, nos atuais níveis, poderia trazer. “O movimento rápido do câmbio também pode levar os empresários a adotarem uma postura mais cautelosa, impactando a atividade econômica”, diz. “Não é bom para ninguém toda essa volatilidade”, acrescenta.

Um dos motivos que acaba agravando o impacto nos juros é percepção de parte do mercado de que a política monetária está mais sensível ao comportamento do câmbio. Isso se deve à surpresa com a decisão do BC de manter juro a 6,50% ao ano, condicionado o anúncio à deterioração do balanço de risco. A interpretação de alguns agentes financeiros é de que o vaivém do dólar – a despeito da inflação ainda contida – aumenta sua relevância no cenário do BC.

Para o sócio e gestor da Flag Asset, Sérgio Goldenstein, uma parte do mercado fez uma interpretação “errada” ao tentar ligar o movimento do câmbio à trajetória futura da política monetária. A escalada do dólar até influenciou a decisão do BC de manter juros. “Isso não significa que, se o câmbio continuar se desvalorizando, o BC vai ter de subir juros no curto prazo, o BC combate apenas o efeito secundário de choque de oferta”, acrescenta.

Na próxima semana, quando será divulgada a ata da última reunião de política monetária, o BC terá oportunidade de mostrar que a ligação entre o comportamento do câmbio e a política monetária não é tão direta, diz Goldenstein. 

A economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, não espera “mensagem alguma sobre o câmbio” no comunicado. “O BC tem que dar essas mensagens fora da ata, isto é, deve fazer em entrevistas e comunicados ao mercado. Não pode confundir política monetária com cambial”, diz. Para ela, o câmbio deve apenas ser tratado como choque de oferta da ata e algo que afeta o balanço de riscos como já está no comunicado.

Pode ser necessário, entretanto, que o BC reitere que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, de modo que “o mercado não comece a discutir alta de juros, o que na minha opinião não faz sentido”. Além disso, para ela, deve ser ressaltado que os próximos passos da política monetária continuarão dependendo da evolução da atividade, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação.

Por volta das 13h41, DI janeiro/2019 subia a 6,665% (6,600% no ajuste anterior); o DI janeiro/2020 avançava a 7,690% (7,620% no ajuste anterior); e o DI janeiro/2021 aumentava a 8,840% (8,670% no ajuste anterior). O DI janeiro/2023 tinha alta a 10,120% (9,770% no ajuste anterior) e o DI janeiro/2025 marcava 10,620% (10,230% no ajuste anterior)

Bolsa

A correção intensa verificada no dia anterior no Ibovespa continua na sessão de hoje, com o índice retornando à faixa dos 81 mil pontos. A crescente aversão global ao risco, somada ao mau humor dos investidores locais, gera uma onda vendedora que coloca quase todos os papéis no campo negativo.

Pouco antes de 13h45, o Ibovespa recuava 2,20%, aos 81.780 pontos, na mínima do dia por ora. O giro financeiro do índice mostra que a movimentação dos investidores tem sido intensa na ponta vendedora, chegando a R$ 7,9 bilhões até o momento — se o ritmo de negociações for mantido, o volume atingirá R$ 15,5 bilhões ao fim do pregão.

“A bolsa reflete o estresse nos juros”, diz um operador que prefere não ser identificado, afirmando que muitos fundos davam como certo um novo corte na taxa Selic, o que não ocorreu. Ele diz que fundos multimercado estão vendendo renda variável, de modo a cobrir eventuais saques e prejuízos gerados pela surpresa em relação à manutenção da taxa básica de juros.

Nesse contexto, um reposicionamento mais forte pode ser visto nos setores de bancos e varejo. Itaú Unibanco PN (-2,86%) tem o maior giro do Ibovespa, com R$ 1,2 bilhão; Bradesco PN (-1,88%), Banco do Brasil ON (-3,16%) e units do Santander (-2,91%) também caem. No mês, todos os papéis acumulam perdas de mais de 10%.

O comportamento dos bancos contrasta com o de outras blue chips do Ibovespa — papéis de grande liquidez e que contam com forte atuação de investidores estrangeiros e fundos. Petrobras PN (-2,31%), Petrobras ON (-0,96%) e Vale ON (-2,60%) têm os maiores ganhos acumulados do índice em maio, sustentados pela valorização das commodities e pelas boas perspectivas dessas empresas.

O setor de varejo também cai forte, com destaque para B2W ON (7,05%), Magazine Luiza ON (-4,56%), units da Via Varejo (2,23%), Lojas Renner ON (-3,09%) e Lojas Americanas ON (-3,44%) entre as maiores quedas do dia. 

Fonte Oficial: Valor.

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