Análise: Tensão na Itália faz reviver medo de crise na Europa – Valor

SÃO PAULO  –  A crise política na Itália levou o euro a recuar para o menor nível desde julho de 2017 e fez investidores partirem para uma venda maciça dos títulos soberanos do país. O sentimento é que um tumulto em uma das maiores economias da Europa possa contaminar outras economias que vinham mostrando bom desempenho depois da crise da dívida na zona do euro, como Espanha e Portugal. O contágio via mercado de bônus de fato é sentido, embora com muito menos pressão do que sobre os ativos italianos.

Não está distante o ano de 2009, quando o receio de uma crise de dívida no continente europeu tomou conta das atenções dos agentes, que estavam ainda vivendo os efeitos da crise do subprime nos Estados Unidos. A partir de 2010 o cenário piorou, a crise de confiança redundou em impacto político em mais da metade dos membros da união monetária, o que redundou em mudanças de poder principalmente em países como Itália, Portugal, Espanha e Grécia, mas abalou também a Irlanda, Eslovênia, Eslováquia e Países Baixos.

A apreensão com os elevados níveis de dívidas e de déficits fiscais amplificaram o tumulto nos mercados financeiros, o que acabou levando o Banco Central Europeu (BCE) a abrir várias frentes de atuação, da criação do Mecanismo Europeu de Estabilidade aos regastes conduzidos pela Troica (BCE, FMI e Comissão Europeia) ao QE (programa de compras de ativos). A autoridade monetária da região conduziu, então, os juros para o terreno negativo e, em 2015, começou a comprar diretamente os títulos públicos dos países que compõem a zona do euro.

Desde então, melhoras foram notadas na condução da política fiscal dos países periféricos, mas a Itália continuou amargando desconfianças com seu sistema bancário, por conta dos padrões e estoques de crédito ruins e suspeitas de corrupção, que mesmo após intervenção doméstica e do BCE, voltam a pesar sobre os investidores. Nos últimos dias, esse foi o setor mais vendido na Bolsa de Milão.

A crise atual começou a se aprofundar no início de maio, quando começaram as negociações dos dois partidos vencedores das eleições de março, a Liga e o Movimento 5 estrelas, apontando para a possibilidade de uma coalizão populista/eurocética. Desde o dia 5 deste mês, o índice de referência da Bolsa de Milão, o FTSE MIB, caiu quase ininterruptamente, acumulando perda de cerca de 13%.

Na semana passada, a situação piorou depois que o presidente Sergio Mattarella vetou a nomeação de um ministro da economia eurocético recomendado pela coalização, levando líderes do % Estrelas a pediram o seu impeachment. Mattarella convidou então o veterano do Fundo Monetário Internacional, Carlo Cottarelli, para formar um governo, mas reconhecidamente suas chances são pequenas justamente pela maioria do Parlamento ser composta pelo bloco populista. Seu fracasso deve redundar em novas eleições em agosto ou setembro e, segundo alerta da Fitch, “pode levar a uma diminuição sustentada da confiança dos investidores e interromper a rearrumação do setor bancário do país, com impacto direto nos ratings das instituições financeiras”. 

A Moody’s colocou na sexta-feira (25) o rating Baa2 da Itália em revisão para rebaixamento, citando riscos fiscais. Um escalada de “downgrades” da dívida poderia deixar a Itália ainda mais frágil. Para os títulos de dívida italiana serem elegíveis para o “QE” do BCE ou serem aceitos como garantia nas operações de liquidez do Eurosistema, o país teria que ter grau de investimento em pelo menos uma das quatro agências (Moody’s, Fitch, S&P e DBRS) – o que não tem agora.

Em resposta a este quadro, há duas semanas o diferencial entre as taxas de juros dos títulos da dívida soberana da Itália e da Alemanha era de 130 pontos base. Na segunda-feira, o spread fechou a sessão em 235 pontos, o maior nível desde novembro de 2013, mas na terça saltou para 300 pontos.

Todo esse cenário pode ter implicações para os planos do BCE, se persistente, como prorrogar o “QE” para além deste ano no intuito de manter os yields sob controle. Mas até sua credibilidade poderia ficar sob fogo cruzado do mercado.

Fonte Oficial: Valor.

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