Análise: Sem os BCs como grandes players, mercados seguirão conjuntura – Valor

SÃO PAULO  –  Desde o começo de 2015, o Banco Central Europeu (BCE) comprou 2,4 trilhões de euros em ativos da zona do euro, inclusive títulos corporativos – algo que outros bancos centrais desenvolvidos não fizeram. Nesta semana, a autoridade monetária deve responder aos mercados a pergunta: este programa já deu os frutos que se esperava e pode ser interrompido? 

Nos Estados Unidos, o “taper” (redução das aquisições de Treasuries) e, mais recentemente, a desaceleração de seus reinvestimentos vêm causando fortes impactos nos mercados. O retrato da menor oferta de financiamento em dólares pode ser visto recentemente na pressão sobre as moedas emergentes e seus prêmios de risco. Com o BCE também reduzindo as compras de ativos e, possivelmente, as finalizando até dezembro, o comportamento dos ativos volta a ser ditado pelas questões intrínsecas do mercado, já que grandes compradores líquidos sairão de cena. 

No caso do BCE, 22% de toda a dívida soberana na união monetária está hoje em suas mãos, divididos por um fator de ponderação entre os países membros da zona do euro (“capital key”, ou chave de capital). Assim, o banco central tem aproximadamente 30% dos títulos em circulação da Alemanha e em torno de 17% dos bônus da Itália – país que está sob escrutínio dos investidores, mesmo com a melhora pontual de percepção que o novo Ministro da Economia Gionanni Tria proporcionou ao falar na segunda (11)  ao diário “Corriere della Sera” que o país não sairá do euro.

Apesar do senso comum de que o BCE deve mesmo encerrar seu QE neste ano, a “yield curve” dos bônus europeus está atualmente ancorada na expectativa de os juros não serão elevados até 2019. “As taxas de médio a longo prazos permanecem sensíveis ao ‘timing’ e à velocidade de saída do BCE da política monetária expansionista, à incerteza desencadeada pela política italiana, bem como ao grande ‘gap’ de rendimentos em relação aos Treasuries”, diz análise do UBS.

O BCE vem reduzindo o volume de compras de títulos desde o início deste ano e “agora está enfrentando um volume crescente de resgates na sua carteira”. Ainda assim, a autoridade monetária continuará a ser um grande comprador no mercado de renda fixa mesmo depois que cessarem as compras líquidas, já que ainda virá o período em que serão feitos os reinvestimentos. O Fed está a pelo menos dois passos à frente (já eleva os juros e já reduz os reinvestimentos).

“Os Bunds [títulos soberanos alemães] devem permanecer divididos entre o ‘tapering’ e o risco-Itália”, diz o UBS. Por um lado, o ‘Q’E reduz os yields e os prêmios de risco dos bônus soberanos da área do euro (durante os meses de verão, aliás, os resgates e a atividade de emissão são muito baixas, diz o banco suíço).

A situação política italiana, no entanto, tem o potencial de desencadear fluxos para ativos seguros como Bunds e um forte alargamento dos prêmios de risco para bônus de menor rating, como aconteceu no fim de maio, diz a UBS. “Por outro lado, um possível anúncio do fim das compras líquidas de títulos elevaria os rendimentos dos títulos soberanos alemães e reduzira o enorme ‘gap’ de rendimento com os títulos do Tesouro dos EUA. Como consequência, antecipamos um aumento da volatilidade dos bônus de governos europeus, que são puxados por estas duas forças fortes de direções diferentes”, afirmam os analistas da instituição.

O fim do “QE” europeu é visto também como um risco para títulos corporativos da zona do euro.

“A oferta constante e insensível ao preço do BCE tem sido uma força poderosa para a compressão dos spreads nos últimos dois anos e para a volatilidade significativamente baixa. Embora o BCE vá continuar a ser um importante jogador nos mercados de títulos corporativos em função dos reinvestimentos, a eliminação gradual das compras provavelmente coincidirá com o aumento das fusões e aquisições, da elevação dos riscos políticos e, potencialmente dos “outflows” por parte dos investidores”, projetam os economistas.

Em um mundo pós-QE, os investidores devem, portanto, esperar por maiores picos de spread durante períodos de risco, com maior volatilidade do mercado e maior dispersão de ativos.

Fonte Oficial: Valor.

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