Cenário externo mais desafiador traz volatilidade, afirma Ilan – Valor

BRASÍLIA  –  Segundo o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, o cenário externo tornou-se mais desafiador e apresenta volatilidade, com uma piora na percepção dos agentes internacionais em relação ao cenário global.

“A evolução dos riscos, em grande parte associados à normalização das taxas de juros em algumas economias avançadas, produziu ajustes nos mercados financeiros internacionais. Como resultado, houve redução do apetite ao risco em relação a economias emergentes”, disse o presidente do BC, em evento promovido pelo Goldman Sachs, em São Paulo. Seu discurso foi disponibilizado no site no BC.

O discurso do presidente do BC é basicamente uma reafirmação de ponto já comentados por ele na quinta-feira e repetido em outros eventos desde então.

“O diagnóstico é de um choque externo afetando cada país de acordo com suas características particulares”, pontuou Ilan, antes de dizer que o Brasil tem amortecedores robustos, fundamentos sólidos e encontra-se mais preparado para lidar com choques externos.

Como exemplo disso, o presidente voltou a listar o balanço de pagamentos, que está numa situação confortável, com superávit comercial, déficit em transações correntes de 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 12 meses até abril, e saldo de Investimento Direto no País (IDP) de 3% do produto no mesmo período.

Além disso, as reservas internacionais, de cerca de US$ 380 bilhões, acima de 20% do PIB, funcionam como um seguro e têm possibilitado passar por choques de diversas naturezas ao longo destes últimos anos sem que os fluxos internacionais de comércio e de capitais fossem fortemente abalados.

Ainda de acordo com Ilan, o atual estoque de swaps cambiais também é um fator importante para garantir a habilidade para enfrentar choques e volatilidades. E o país também apresenta um ambiente com inflação corrente baixa e expectativas ancoradas.

Câmbio

O BC vai continuar oferecendo swaps cambiais ao mercado, segundo Ilan. “Esse é um instrumento que utilizamos no passado, e a redução de seu estoque durante o interregno benigno aumentou nosso espaço para atuação. Este é o momento de usá-lo. Estamos usando swaps cambiais e podemos ir além dos valores máximos utilizados do passado [US$ 115 bilhões]”, disse.

Ainda de acordo com o presidente, não há preconceito quanto ao uso de qualquer instrumento. “Podemos empregar swaps cambiais, reservas ou leilões de linha, dependendo da necessidade.”

Essas afirmações já tinham sido feitas por Ilan na quinta-feira da semana passada, quando o presidente deu entrevista coletiva após um dia de forte instabilidade nos mercados. Na sexta-feira, o mercado reagiu e o dólar teve a maior queda diária em cerca de 10 anos. Também na sexta-feira, foi a vez o Tesouro anunciar a disposição de atuar o quanto for necessário para tirar risco e dar referência de preços no mercado de títulos públicos.

Ilan voltou a ressaltar que o BC vai intensificar o uso dos swaps, que equivalem à venda de dólares no mercado futuro, no curto prazo. Segundo o presidente, para prover liquidez, oferecer hedge e garantir o bom funcionamento dos mercados, em adição aos US$ 750 milhões diários já planejados, iremos oferecer US$ 20 bilhões até o dia 15 de junho, totalizando US$ 24,5 bilhões. “Sem prejuízo de atuações adicionais, caso necessário”, pontuou.

Nesta segunda-feira, o BC fez a venda integral de um lote de 50 mil contratos, equivalentes a US$ 2,5 bilhões, além da rolagem dos contratos que vencem em julho. Desde meados de maio a injeção líquida de recursos está na casa dos US$ 20 bilhões, e o estoque total de contratos em mercado está ao redor de US$ 44 bilhões.

Copom

Sobre o Copom, Ilan lembrou que em sua última reunião o Comitê decidiu, por unanimidade, pela manutenção da taxa básica de juros em 6,50% ao ano, e que o colegiado também avaliou como adequada a manutenção da taxa de juros no patamar corrente, caso as condições se mantivessem. 

Para a próxima reunião do Copom, que ocorre nos dias 19 e 20 de junho, Ilan afirmou que o colegiado analisará as condições com foco, como sempre, nas projeções e expectativas de inflação e no seu balanço de riscos e que tomará a decisão que considere adequada naquele momento.

“Essa análise levará em consideração que o impacto de choques recentes sobre a política monetária ocorrem através dos seus efeitos secundários sobre a inflação [ou seja, pela propagação a preços da economia não diretamente afetados pelo choque]. Esses efeitos tendem a ser mitigados pelo grau de ociosidade na economia e pelas expectativas e projeções de inflação ancoradas nas metas”, disse o presidente.

Ilan voltou a apresentar o balanço de riscos para inflação, que evolve fatores em ambas as direções. Por um lado, a possível propagação, por mecanismos inerciais, do nível baixo de inflação pode produzir trajetória prospectiva abaixo do esperado.

Atuando em outra direção, uma frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas e ajustes necessários na economia brasileira pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária. O risco deste impacto se intensifica no caso de continuidade da reversão do cenário externo para economias emergentes. E esse último risco se intensificou desde a última reunião do Copom.

O presidente do BC explicou, ainda, que a favor da decisão de manter a taxa Selic em 6,5% ao ano pesou a mudança no balanço de riscos para a inflação em função do choque externo, que reduziu as chances de a inflação permanecer abaixo da meta no horizonte relevante por meio de possíveis impactos secundários na inflação.

“Isso tornou desnecessária a mitigação de risco de convergência demasiadamente lenta da inflação às metas. Pesando o cenário básico e o balanço de riscos, o Copom concluiu que a decisão de manter a taxa de juros no atual patamar era a mais apropriada”, disse.

O BC foi criticado logo após a decisão pela manutenção por não teria sinalizado de forma clara essa mudança no seu balanço de riscos. O mercado foi para a reunião dos dias 15 e 16 de maio com consenso de que uma nova redução de 0,25 ponto seria feita no juro básico.

O presidente também reiterou que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, ou seja, com taxas de juros abaixo da taxa estrutural – que é aquela que promove o crescimento com inflação nas metas.

“De fato, o presente processo de flexibilização monetária tem levado à queda das taxas de juros reais e tende a estimular a economia. Essas taxas, estimadas usando várias medidas, se encontram próximas de 3,5% ao ano”, pontou.

Fonte Oficial: Valor.

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