Análise: Tarifar carro europeu pode ter efeito bumerangue sobre Trump – Valor

SÃO PAULO  –  Os Estados Unidos parecem ter estendido uma possibilidade de reconciliação em relação às tarifas sobre a importação de automóveis europeus, mas o plano, chamado de “solução zero”, pode acabar fazendo com que as negociações comerciais da administração Trump prejudiquem as montadoras americanas.

Trump vem criticando a tarifa de 10% da União Europeia sobre os automóveis importados, enquanto a tarifa americana sobre veículos europeus é de apenas 2,5%. No entanto, a sobretaxa mais pesada envolvendo o setor automobilístico é, na realidade, uma tarifa já existente de 25% dos EUA sobre a importação de caminhonetes leves, SUVs e cross-overs da Europa.

Conhecida nos EUA como “Chicken Tax”, a tarifa foi imposta em 1964 em retaliação a barreiras comerciais europeias contra a importação de carne de frango americana e se mantém até hoje.

A tarifa, que é inclusive mais alta do que as que Trump ameaça impor – em 22 de junho, o presidente americano ameaçou por meio do Twitter impor uma taxa de 20% sobre os veículos europeus – tem tido um papel importante ao proteger o lucrativo mercado de caminhonetes nos EUA há décadas.

Em março de 2018, por exemplo, dois terços dos veículos vendidos nos EUA (1.097.904 de unidades) se enquadram na categoria de caminhonetes e SUVs, que, além do volume de vendas, têm também um valor médio mais elevado.

As montadoras europeias enviaram cerca de 1,2 milhão de veículos aos EUA em 2017, de acordo com dados do “The Wall Street Journal”. Embora o número pareça elevado, isso representa menos de 7% dos 17,3 milhões de veículos vendidos nos EUA no mesmo período, e mesmo uma elevação das taxas a 20% não seria suficiente para mudar o cenário para as vendas de caminhonetes.

Do outro lado da moeda, apenas 15% dos veículos americanos enviados à Europa foram sujeitos a sobretaxas, de acordo com uma estimativa da pesquisadora sênior Christine McDaniel, do George Mason University’s Mercatus Center. Isso porque muitos dos veículos americanos são isentos das tarifas por incluírem um requisito percentual mínimo de partes feitas na Europa.

As tarifas podem, portanto, ter um efeito positivo menor do que o esperado sobre a balança comercial americana e, ao invés disso, prejudicar o volume total de vendas de veículos. O efeito seria inclusive negativo, caso as negociações levem a mudanças sobre a “Chicken Tax”, embora isso seja improvável.

“Uma guerra comercial envolvendo veículos seria devastadora para o volume de vendas nos Estados Unidos e em outros mercados-chave”, disse Jeff Schuster, analista-chefe de vendas globais de veículos da LMC Automotive à Dow Jones Newswires.

Schuster projeta uma queda de 11% nas vendas anuais de veículos nos EUA, ou 2 milhões de unidades, no caso da aprovação de uma tarifa de 25%. Mesmo que as montadoras absorvam metade dos custos da tarifa, isso ainda geraria uma queda nas vendas de 917 mil unidades.

Fonte Oficial: Valor.

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