Um relato da “enlouquecedora” hiperinflação em Caracas – Exame

Nenhuma transação comercial – pagar um táxi ou comprar um cachorro-quente na rua — é simples e descomplicada. Nenhuma.

Por Patricia Laya, para a Bloomberg

access_time 12 ago 2018, 08h00

Fiquei hipnotizada enquanto o caixa do Burger King passava o cartão de débito do meu amigo.

Um Whopper, uma passada.

Uma Coca-Cola, uma passada.

Uma batata frita, uma passada.

Um molho de churrasco extra, uma passada.

A inflação é tão insana que os dispositivos de leitura de cartões não conseguem processar nem sequer um simples almoço de fast food — esse custou cerca de 20 milhões de bolívares — sem dividi-lo em pequenas partes.

O grande plano do presidente Nicolás Maduro para resolver essa situação é mudar a denominação da moeda e cortar cinco zeros. Ele diz que isso vai “mudar radicalmente a vida monetária do país”.

É pouco provável. Mas, pelo menos temporariamente, isso aliviará a loucura. Hoje em dia, nenhuma transação comercial — pagar um táxi ou comprar um cachorro-quente em um carrinho de rua — é simples e descomplicada. Nenhuma.

Eu só fui parar no Burger King por causa de uma sequência de acontecimentos bizarra em um restaurante na noite anterior que me deixou, de repente, completamente sem dinheiro.

Tudo começou quando o caixa me disse que o meu cartão de débito tinha sido recusado. Ele tentou passar o cartão diversas vezes, mas a resposta foi sempre a mesma.

Liguei para o banco. A pessoa do outro lado da linha me informou que eu tinha atingido o limite mensal de extração. De quanto é? 480 milhões de bolívares. Isso pode parecer muito, mas é apenas cerca de US$ 120.

O limite, segundo ele me disse, foi imposto pela autoridade bancária para combater atividades financeiras ilícitas. De verdade. E, como os cartões de crédito (limites minúsculos de gastos) e o dinheiro em espécie (trabalhoso demais) há muito tempo deixaram de ser opções de pagamento viáveis, eu fiquei, como vi, completamente sem dinheiro durante 11 dias até o mês acabar.

Eu não estava totalmente quebrada, é claro. O aluguel estava pago, as contas não estavam vencidas. E, de fato, consegui comer naquela noite de sexta-feira, depois de chamar o gerente. Ele aceitou uma transferência bancária on-line, mas eu tive que deixar algum tipo de garantia até a transação ser confirmada. Entreguei a minha carteira de identidade e o meu cartão de débito — que ficaram reféns durante a noite por uma taça de vinho e rolls de sushi de camarão.

O Burger King, graças à generosidade do meu amigo, me alimentou no sábado. No domingo, fui a La Guairita, um bairro onde vendem produtos importados que há muito tempo desapareceram das prateleiras dos supermercados.

Tudo é incrivelmente superfaturado e boa parte dos produtos está com a data de validade vencida. A vantagem, como lembrei no meu desespero, era que eu poderia pagar por transferência bancária.

Essa dose súbita de liberdade financeira me levou a comprar mais do que eu precisava. Fermento em pó, por que não? Cereal de chocolate, claro. A empolgação não durou muito. O site do meu banco caiu.

Sentei em uma cadeira de plástico ao sol e esperei. Enquanto eu esperava, a vontade de comprar um monte de coisas aleatórias foi diminuindo. Comecei a desistir de alguns itens. Primeiro, abandonei a caixa de cereal de chocolate e uma lata de refrigerante e depois, infelizmente, um pacote de salgadinhos de queijo.

Após 45 minutos, a transferência felizmente se concretizou. Com um sorriso no rosto, fui embora com o fermento, um pouco de farinha de trigo e alguns ovos e bananas. Naquela tarde, fiz panquecas de banana. Ficaram uma delícia. Ou talvez eu estivesse mesmo é com muita fome.

Fonte Oficial: Exame.

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