Panorama do Câmbio: Explicação do Desempenho do Dólar em 2018 – Investing.com

Com certeza, o câmbio é um dos assuntos do mercado financeiro que mais suscita discussão entre profissionais e leigos, dados os diversos impactos que as variações podem causar em seus respectivos cotidianos.

Existe uma célebre frase do economista Edmar Bacha bem disseminada no mercado: “O câmbio foi inventado por Deus para humilhar os economistas”. A frase reflete a dificuldade de se estimar valores futuros para o câmbio, qualquer tentativa de tentar estimar algum patamar de paridade entre real e o pode culminar em erro.

O objetivo desta publicação não é cravar algum patamar de preço para a projeção do câmbio, mas sim trazer ao conhecimento do leitor fatos e dados com potencial de afetar o preço do dólar hoje. Atualmente, as oscilações do dólar frente ao real têm sido associadas majoritariamente às incertezas que rondam a disputa pelo Palácio do Planalto, o que não deixa de estar correto. Contudo, existem três outros fatores que não podem ser deixados de lado.

Em primeiro lugar, acredito que seja importante citar o recente histórico de elevação das taxas de juros nos Estados Unidos. Após a crise em 2008, o governo norte americano concedeu diversos incentivos para que a economia se recuperasse, dentre eles, a redução e manutenção das taxas de juros em níveis baixos, conforme mostra o gráfico abaixo:

Taxa de Juros nos EUA

Fonte: Bloomberg / Elaboração própria.

Contudo, os últimos dados da economia norte americana, dentre eles, desemprego, salários, produção industrial e vendas no varejo, mostram que a economia respondeu bem aos incentivos.

Com isso, já é possível observar os reflexos na inflação, conforme mostra o gráfico seguinte. Nesse sentido, visando manter o poder de compra da moeda norte americana, é intuitivo que a taxa de juros seja elevada. No decorrer de 2018, já ocorreram duas elevações e, segundo o presidente do Banco Central Estadunidense, ainda em 2018 há espaço para mais duas elevações de 0,25 p.p.

Inflação nos EUA

Inflação nos EUA

Fonte: Bloomberg / Elaboração própria.

Quando ocorrem elevações nas taxas de juros em economias maduras, como é o caso dos Estados Unidos, é normal observar o fluxo cambial de dólar sair de países emergentes em direção a essas economias, consideradas mais seguras, levando ao aumento do dólar frente às moedas dos emergentes.

Quando o investidor estrangeiro decide retirar seu investimento do Brasil, ele precisa trocar o real por dólar. Com isso, a demanda por dólar vai se elevar e, de acordo com o princípio básico de economia de oferta e demanda, quando a demanda por um bem se eleva e os outros fatores permanecem inalterados, a tendência é que o preço do determinado ativo se eleve.

Em segundo lugar, é importante citar o turbulento cenário macroeconômico em que o país se encontra. Através do relatório Focus, divulgado todas as segundas-feiras pelo Banco Central, observa-se constantes cortes na projeção de expansão do PIB para o biênio 2018 – 2019. De acordo com a teoria econômica, o Produto Interno Bruto é formado por quatro variáveis: consumo das famílias, investimentos, gasto do governo e saldo líquido da balança comercial, ou seja, exportações menos importações.

O consumo das famílias está estagnado, apresentando pequenas variações. É possível associar tal estabilidade majoritariamente ao elevado patamar de desemprego, que atualmente atinge cerca de 12,9 milhões de brasileiros, e à elevada parcela da população com o nome sujo, o que dificulta o acesso ao crédito.

Expectativas do mercado

Fonte: Banco Central / Elaboração própria.

No que tange aos investimentos do governo,talvez esta seja a variável mais emblemática, dado que os mesmos estão congelados pela regra do teto dos gastos públicos, que prevê que gastos com investimentos, considerados despesas discricionárias, aquelas que são passíveis de cortes, não podem crescer acima da variação da inflação acumulada dos últimos 12 meses. Os investimentos públicos estão sendo pressionados por maiores despesas previdenciárias e gastos com folhas de pagamento, que crescem acima da inflação.

Por último, temos o saldo da balança comercial. Esta última variável tende a se beneficiar da valorização do dólar frente ao real e a explicação é simples. Com o dólar, moeda na qual as commodities são cotadas internacionalmente, mais valorizado, os produtos brasileiros ficam mais baratos. Logo, os setores exportadores da economia tendem a se beneficiar, devido aos seus produtos terem preços mais atrativos. O contrário ocorre para as importações. Com o real mais desvalorizado, fica mais caro importar, o que também favorece a balança comercial.

Assim sendo, eu não esperaria por atuações milagrosas e mais enérgicas por parte do Banco Central para conter a escalada do dólar frente ao real por meio de swaps cambiais ou venda de dólar no mercado futuro. Acredito que a atuação da autoridade monetária será mais no sentido de dar liquidez e atuar em momentos específicos de forte volatilidade. Um dos fatores que me faz acreditar nesta última afirmação é o fato de termos a inflação sob controle e que, muito provavelmente, chegaremos ao fim do ano dentro da meta. Logo, creio que a pressão inflacionária decorrente da desvalorização do real não justifique grandes esforços do BACEN para conter a depreciação do real.

Por último, mas não menos importante, é válido citar a crise dos países emergentes, principalmente Turquia e Argentina. Nas últimas semanas, as moedas de ambos os países, peso argentino e , ganharam os noticiários em decorrência das acentuadas perdas frente ao dólar. Em 2018, elas se depreciaram substancialmente, aproximadamente 46% e 73%, respectivamente. Além do fato de serem economias emergentes, ambos os países possuem uma característica peculiar com o Brasil, o elevado endividamento, que por sua vez, em combinação com outros elementos, se constitui em um combustível para elevação do risco país, que pode ser mensurado através da elevação do CDS.

CDS médio mensal

CDS médio mensal

Fonte: Bloomberg / Elaboração própria.

A importância de citar a atual crise dos emergentes, nos remete à crise financeira de 1997, envolvendo economias em desenvolvimento do sudeste asiático, se alastrando para outros países do continente e chegando à Europa, atingindo a Rússia, e à América do Sul, respingando no Brasil e na Argentina. O elemento central da referida crise foi a brusca desvalorização das moedas frente ao dólar, em parte associada a fuga de capital e a ataques especulativos, acompanhados da desvalorização dos índices acionários locais.

Os governos elevaram as taxas de juros na tentativa de conter a desvalorização, gerando recessão e retração no PIB, utilizaram reservas cambiais e por fim solicitaram ajuda ao FMI. O ápice da crise foi a moratória Russa, em agosto de 1998, ocasionada majoritariamente pela redução da oferta de crédito internacional e pela queda no preço das commodities.

Um elemento central no colapso do fim dos anos 90, foi a fragilidade das reservas cambiais dos países, que ficou evidenciada após a mudança do câmbio fixo para flutuante. As reservas servem para proteger o país em momentos de maior vulnerabilidade, evitando choques cambiais por meio de ataques especulativos, visto que a capacidade de um banco central intervir nesses casos, está ligado diretamente ao tamanho dessas reservas, o que, no caso da Turquia e Argentina, são bem rasas.

No que diz respeito às reservas cambiais do Brasil, essas totalizam cerca de US$380,9 bilhões, segundo o Banco Central, o que é considerado um patamar confortável. Estas concedem ao BACEN a capacidade de atuar em momentos de choque. Enquanto as reservas da Argentina e Turquia não passam de US$70 bilhões.

Fonte Oficial: Investing.com.

Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do World Câmbio.

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