Cem anos antes de Trump querer a Groenlândia, Brasil comprou o Acre – Exame

O presidente americano, Donald Trump, é um ferrenho defensor de levar a lógica comercial para as relações políticas. A estratégia, explicada por ele em livro, se resume a fazer pedir alto e falar grosso para levar o outro lado a ceder. Depois, com sorte, pode-se anunciar vitória seja qual for o meio-termo alcançado.

Com esta estratégia forjada em décadas atuando no ramo imobiliário ele levou os Estados Unidos a uma guerra comercial com a China, encontrou-se três vezes com o ditador norte-coreano Kim Jong Un e forçou um rompimento de um acordo nuclear com o Irã. Agora, veio à luz uma nova e inusitada frente de “negociação”. Segundo a imprensa americana, Trump quer comprar a Groenlândia, a maior ilha do mundo, que pertence à Dinamarca.

O jornal The Washington Post afirma que na Casa Branca já foi discutida a legalidade da hipotética compra, do processo para incorporar um território e também de onde sairia o dinheiro para a aquisição. A emissora “CNN”, por sua vez, disse que Trump pediu ao advogado da Casa Branca, Pat Cipollone, que estude a possibilidade.

Não está claro qual é o motivo pelo qual Trump estaria interessado na compra da Groenlândia, embora alguns especulem seus recursos naturais e outros a importância geoestratégica pela proximidade ao Ártico. A Groenlândia tem 75% de sua superfície coberta por gelo e os 2,1 milhões de quilômetros quadrados fazem dela a maior ilha do mundo, embora habitada por somente 56 mil pessoas, a maioria da etnia inuit.

Os Estados Unidos ocuparam em 1941 a Groenlândia para evitar uma possível invasão nazista da ilha depois que os alemães ocuparam a Dinamarca, situação que se prolongou até o fim da guerra em 1945. Em 1951, o país construiu uma base aérea na ilha. Harry Truman, que comandou o país de 1945 a 1953 chegou a oferecer 100 milhões de dólares à Dinamarca, mas não conseguiu fechar negócio. Agora, a Dinamarca foi mais uma vez categórica ao afirmar que a ilha não está à venda e que a proposta é “absurda”.

A tentativa de comprar a Dinamarca parece se encaixar à lógica agressiva de negociações de Trump. Pode se encaixar, por exemplo, dentro de sua estratégia de pressionar a Europa para investir mais em segurança na Otan, o tratado militar do Atlântico Norte.

“Parece um movimento mais simbólico do que real, como a construção do muro no México. Trump parece querer deixar um legado com grandes obras que não fazem mais sentido no mundo atual”, diz Gabriel Petrus, diretor-executivo da Câmara Internacional de Comércio no Brasil e colunista de EXAME. “Não é mais preciso garantir segurança comprando territórios; faz mais sentido uma política de cooperação”.

Trump visitará a Dinamarca em setembro, numa oportunidade de mostrar se passará das consultas de gabinete à ação. Em entrevista nesta domingo, Trump confirmou a intenção, afirmando que os EUA protegem a Dinamarca “assim como grandes partes do mundo” e que o projeto é de fato interessante, mas “não é a prioridade número 1”.

Com jeitão de passado

A estratégia combina mais com o século 19 do que com 2019. Os Estados Unidos foram construídos quase como uma empresa moderna, com fusões e aquisições.

Entre os grandes negócios estão a compra da Louisiana da França, em 1803, por 15 milhões de dólares; parte da Flórida foi comprada da Espanha em 1819; o Texas foi anexado do México em 1844 e outros estados, como Arizona e Califórnia, foram comprados por 15 milhões de dólares em 1848 como acordo para o final da Guerra Mexicano-Americana. Pode entrar no rol de grandes acordos comerciais do país a construção do Canal do Panamá, inicado pela França em 1880, mas assumido pelos americanos em 1904.

Aquisições entre países dificilmente são fechadas sem derramamento de sangue. Com o Brasil não é diferente. O país comprou, por exemplo, o Acre da Bolívia em 1903, pagando 2 milhões de libras esterlinas, áreas do Mato Grosso e o compromisso de construir a estrada de ferro Madeira-Mamoré (inaugurada em 1912).

A compra do Acre foi mencionada pelo presidente boliviano, Evo Morales, durante debates recentes sobre petróleo e recursos naturais entre os dois países — Evo relembrou a lenda de que o Brasil teria pago com cavalos pelo território. Os dois países sentaram à mesa de negociação para encerrar um conflito entre seringueiros principalmente brasileiros e o governo da Bolívia.

Muito antes, em 1494, Brasil e Espanha sentaram para negociar a divisão dos territórias descobertos na América. Outros diversos tratados e disputas ao longo dos séculos foram adaptando o território das colônias à necessidade das metrópoles. “Antigamente, território era sinônimo de poder, porque permitia acesso a recursos naturais e fronteiras para comércio”.

Hoje, a relação de poder entre os países engloba uma quantidade maior de fatores e deveria dispensar a aquisição territorial. A menos que sua plataforma de governo seja voltar a tempos de glória e que sua mente seja moldada para comprar e vender imóveis, como no caso de Donald Trump.

Fonte Oficial: Exame.

Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do World Câmbio.

Comentários

você pode gostar também

Quer fazer parte de nosso grupo?

Inscreva-se em nossa newsletter!